A Guerra sem Fim

Wander acordou de um sono profundo. A armadura branca de tecido leve refletia em seu capacete. Em sua têmpora, uma minúscula estrela luminosa, quase imperceptível, pulsava em tons vibrantes. Algo raspou em seu ombro.

— Mexa-se, soldado! – Gritou o vulto feminino. — Atire!

À sua frente, uma trincheira. O solo avermelhado e a poeira baixa pareciam-lhe familiar. Inspirou lentamente o oxigênio puro do traje, amargo em sua essência, buscando um efeito transformador. Terríveis sensações importunavam seus sentidos. Como havia parado ali?

— Que droga, Wander! Ainda está nessa?

Num esforço sofrido, pôs-se a levantar e deixou as emoções de lado. Esticou o pescoço além da proteção. O choque redobrou-lhe os sentidos. Os traços intermitentes no céu, a chuva de granizo lenta e constante, bem como o solo rochoso infernal, indicavam apenas uma realidade: ainda estavam ao redor do planeta sem nome, num de seus asteroides artificiais, em alta velocidade, combatendo um inimigo desconhecido em seu próprio habitat alienígena.

— Desculpe, Rakesh. Perdi o controle por um momento.
— Até que enfim!
— Como estamos? – Indagou ele, recarregando seu rifle tétrico e analisando o horizonte vermelho.
— Mal, muito mal. Eles continuam usando a relatividade. Uma tática bastante eficaz.
— Ainda não entendi como fazem isso. Giramos tão rápido ao redor do planeta que quase encontramos nós mesmos no passado.
— Não descarto essa possibilidade. É uma ideia insana, mas talvez explique os “apagões”. A mente não aguenta os efeitos da duplicação. – Afirmou.
— O que vamos fazer, então?
— Continuar atirando!

A desorientação o atingia de forma constante, o céu estrelado já não passava de um borrão artístico e suas têmporas se dilatavam em desarmonia. Uma situação que já durava algumas horas, contudo, para sua mente frágil e não-adaptada, uma semana já havia se passado nas desprezíveis entranhas da barreira inimiga.

— Rakesh… Olha isso!
— O que foi?
— Percebi uma coisa. Em todo esse tempo, meu equipamento não se desgastou. Ainda tenho a mesma carga de antes.
— E daí? Vai ver eles querem nos manter assim pra sempre…

E, pela primeira vez nas últimas horas, finalmente prestava atenção ao que ouvia. O lampejo de uma ideia voraz o atingiu: o inimigo esperava que se exterminassem sozinhos. Com tantas idas e vindas em órbita constante, poderiam estar atirando em si mesmos e nem saberiam (ou, quem sabe, tudo não passasse de uma lição distorcida de uma inteligência superior, afinal, uma guerra sem fim não teria sentido).

— Será que o módulo ainda funciona? – Indagou ele, deixando a artilharia de lado e subindo a trincheira. Estendeu a mão em seguida.
— Vai ser impossível igualar a velocidade. – Disse ela, aceitando a ajuda.

Desviou-se dos tiros, que poderiam ser de seus próprios companheiros, e correu até a nave pontiaguda com cara de ferro-velho. Àquela altura já não questionava como era possível a gravidade local ser tão semelhante à da Terra. Os instrumentos ainda funcionavam, apesar dos painéis apresentarem dados absurdos. Interessado nos controles, Wander não percebeu quando Rakesh desapareceu de seu horizonte visível.

— Você sabe onde estão os outros? Eram cinco mil na primeira leva! Rakesh?

Não houve resposta.

Um silêncio perturbador invadiu a câmara interna. Sozinho e sem objetivo, desvaneceu. Sentiu-se esgotado. Os efeitos da dilatação temporal começavam a ressurgir. Aquilo já havia acontecido antes, tinha certeza…

Era um sonhador. Não do tipo comum, mas do tipo que sonhava em atravessar o oceano de estrelas e alcançar o exterior daquela vidinha medíocre à qual estava submetido. Ali tinha tudo, embora o nada trouxesse consigo o charme do desconhecido. Um dia, quem sabe, alcançaria aquelas luzes distantes que insistiam em saudá-lo, estendendo um convite contínuo aos seres de carne, tão próximos em pensamento, mas tão longe em seus métodos. Estariam dispostos a trocar informações? Trariam as respostas que tanto buscavam? Estendeu a mão aos céus de nebulosa e aguardou…

(…)

Wander acordou de um sono profundo. A armadura branca de tecido leve refletia em seu capacete. Em sua têmpora, uma minúscula estrela luminosa, quase imperceptível, pulsava em tons vibrantes… Um anfitrião. Uma esponja do mar de silício, um coral das profundezas vulcânicas daquele asteroide vermelho, um dispositivo vivo que revelava os desejos e instintos mais primitivos de quem ousasse adentrar seus domínios, os verdadeiros donos do planeta em questão. Desligou os neurotransmissores. Aquele espécime já não apresentava perigo.

Wander, ao deparar-se com aquela estrela-do-mar pulsante o encarando dentro do capacete, lembrou-se, finalmente, de que jamais havia conhecido alguém chamada Rakesh.

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Uma breve visita à psiquiatra

— Então, doutora. Qual é o meu problema?
— Sua mente gosta de se alimentar de tristeza. É igual a uma droga farmacêutica.
— E o que faço?
— Pare de alimentar seu monstro interior. Nostalgia e melancolia são como cerejas – se você comer demais, enjoa. Deixe o passado no passado, viva o presente e planeje um futuro simples, livre de complicações. As melhores coisas da vida, às vezes, simplesmente acontecem. Acima de tudo, seja grato.

Era um bom conselho. Ao sair do consultório, acionou discretamente a máquina do tempo em seu pulso e voltou ao presente, de onde jamais deveria ter saído. “Obrigado… Mãe”, sussurrou ao vento, solitário, destruindo o dispositivo em seguida.

A beleza está nos olhos de quem vê

Silenciado pela noite, encontrou na luz das estrelas o conforto que há tanto tempo buscava sentir. O ferimento recente clamava por atenção, embora suprimido pela vontade maior de pertencer. Fora um mal-entendido. Sentou-se à beira do lago. A lua sorriu-lhe em resposta. Estendeu a mão, esperando que alguém encontrasse aquele sinal distante e lhe desse uma carona de volta à normalidade. Estava em busca de uma palavra, uma sensação… Casa. Era disso que sentia falta. As horas passaram, nuvens também. A aurora se fez presente, e com ela, sombras sem forma trouxeram consigo instrumentos da esperança de compreensão. O metal frio circundou seus braços. Tal qual vaga-lumes, apagou-se. O líquido quente ainda escorria de suas mãos. Fora um mal-entendido. Como poderia saber que os humanos eram tão frágeis?

Compasso

Aquela seria mais uma expedição de rotina nas planícies geladas da Antártida, não fosse pelo curioso fato ocorrido no posto avançado número sete. As geleiras permaneciam íntegras, mas os biólogos haviam detectado um corpo estranho embaixo da superfície na qual repousava o maquinário de estudos, e isso, obviamente, tornara aquela manhã ímpar. Sendo um dos poucos técnicos em perfuração da equipe, precisava fazer minha parte.

Linus, um pinguim curioso e bem conhecido no assentamento, observava de longe as estranhas criaturas de jaleco branco, pensativas. Decerto, esperava ganhar algum petisco. Um buraco artificial de apenas quinze centímetros de diâmetro intrigava a todos. Não havia registro de perfuração naquela semana, tampouco de abalo sísmico. A câmera mostrava apenas uma mancha irregular no fundo, semelhante à uma água-viva desidratada.

Ninguém se atreveu a dar o primeiro palpite. Aquilo era uma alga centenária preservada por meios naturais ou uma forma de vida desconhecida, sob criogenia – os oceanos continham uma infinidade de seres não catalogados. O problema real estava no campo aritmético. Linus enfiou-se na multidão e também olhou para baixo.

Rodamos uma série de diagnósticos durante o dia. Mexer numa geleira daquele porte envolvia cálculos precisos. Cansado, resolvi deitar na tenda estendida. Se aquilo era mesmo natural ou um alienígena do passado, só me interessava fechar os olhos.

Foi aí então que nosso amigo de trinta centímetros perdeu o interesse e se afastou. No meio do caminho, encarou o solo menos rígido. Cravou o bico com força no chão. Esticou uma das patas e começou a riscar uma abertura ao redor de seu corpo, sem levantar o focinho do ponto central, desenhando, sem sombra de dúvidas, um círculo perfeito.

Entre aliens e uma falha catastrófica, preferimos relatar um pinguim matemático.

Resenha: Atemporal

No início deste ano, fui agraciado com a oportunidade de participar de uma coletânea temática, preparada pela Caligo Editora, intitulada “Atemporal” , onde o conhecido mote de viagens no tempo ganha nova roupagem.

Segue abaixo minhas considerações…

Notas são muito subjetivas e sempre se apoiam em gostos pessoais, cultura e comportamento. Tentei ser o mais imparcial possível, e me abster de avaliar meu próprio texto, mesmo assim, quis fazer algo diferente. Após cada nota, adicionei a “sensação” que aquele texto me provocou – o que, às vezes, significa muito mais do que reduzir tramas e enredos à simples números que não transmitem a verdade completa.

1-Amélia

Um conto mais intimista, com ares de fantasia urbana, com foco exclusivo nas personagens. A ação se passa num cenário comum, litorâneo. Traz a história cotidiana de uma jovem e sua estranha amiga. Não espere ideias mirabolantes ou maquinários fantásticos, todavia, a simplicidade funciona muito bem, tornando a leitura agradável (mesmo com gírias em português original). Já havia “matado a charada” no meio do texto, afinal, sou acostumado a esse gênero, contudo, isso não tira o brilho da construção. A melancolia percorre o texto do início ao fim, e isso sempre me atrai. Nota: 9,0. Sensação: encontrar uma garrafa na praia, contendo uma mensagem antiga, de alguém muito próximo.

2-À Roda do Meu Quarto

Essa construção tem uma pegada New Weird, carregada de lirismos, mas sem entediar ou cansar o leitor. A história flui, de maneira bem estranha, mas cativa. Conta a mini odisseia de um historiador, em busca de aprofundar seus conhecimentos a respeito do objeto estudado. A temática aparece apenas superficialmente. Tentei fazer várias conexões, mas apesar da parte fantástica estar presente, o absurdo impera. Tem quem goste, mas, infelizmente, não faz meu estilo. Senti falta de algo mais palpável, crível. Contudo, isso não tira o brilho de sua semelhança com um texto erudito, anacrônico (talvez a parte atemporal se encaixe aqui, de forma mais subjetiva). Nota: 7,5. Sensação: tomar um remédio controlado, faixa preta, e em seguida esvaziar uma grande taça de vinho num gole só.

3-A Última Viagem de Um Homem sem Fé

Esse contém todos os elementos da ficção científica clássica, mas com uma pegada bem mais filosófica. Apesar de algumas indecisões quanto aos tempos verbais, o texto flui muito bem após o capítulo dois. Digo isso porque o início soa um tanto repetitivo em algumas partes, mas quando a viagem realmente acontece tudo melhora. Acompanhamos a peregrinação de um homem em busca de respostas mais profundas às suas questões pessoais, além de uma jornada através dos tempos por meio de suas divagações. O final dúbio foi muito interessante, pois deixa a sensação de que tudo não passou de um ato egoísta, apesar do amor (sentimento) estar implícito na maioria das vezes. Deixaria apenas um nome especial sem ser mencionado. Tudo caminhava de uma forma sutil, intrigante. Seria melhor tê-lo deixado nas sombras. Nota: 8,0. Sensação: caminhar pelo deserto ao amanhecer, ao som de gafanhotos estridulando, levando consigo apenas um odre e um mapa de couro, com destino incerto.

4-Buraco de Minhoca

Um conto meigo, futurista (ou não), com ares de fábula infantil. Narra a história de uma garotinha em busca de uma cura para a doença de sua mãe. Dizer mais estragaria a experiência de quem o lê pela primeira vez. Cativa pela simplicidade, embora contenha bastante termos científicos em sua introdução. Quando a virada se dá logo no início do texto, uma técnica ousada, acompanhar sua viagem se torna ainda mais interessante. Visualizar a ‘peregrinação’ da garotinha, em busca da verdade e de conhecer a si mesma, vale a pena. Pena que, próximo ao fim, há um leve excesso de informações, mas como o ponto de vista principal permanece, tudo correu bem. A conclusão traz um enigma interessante. Era tudo real mesmo? Ou apenas um trabalho bem feito pela equipe médica? É um texto que exige atenção, mas ao se ler com carinho, encontrará uma bela mensagem nas entrelinhas. Nota: 9,0. Sensação: levar uma criança na roda-gigante pela primeira vez e descobrir, de imediato, que ela é muito mais esperta e corajosa do que você.

5-Gênio

Um ótimo suspense tendo como pando de fundo o dia a dia de uma universidade comum. A história já engata de primeira com um misterioso corpo estendido no chão. Gostei como fatos aparentemente cotidianos afetam o enredo de forma satisfatória. Nada está jogado ao acaso. O sentimento de amizade convence e a sensação de ‘dejavú’ também. Tem passagens bastante inspiradas por clássicos dos anos oitenta, mas sem pesar a mão, de forma sutil. Só achei a diretora um tanto genérica e estereotipada. Perto do fim, duas teorias entram em conflito e tornam o texto mais denso, exigindo atenção redobrada. Confesso que essa parte deu um nó no cérebro, e travou um pouquinho a leitura, mas a conclusão coloca o enredo de volta nos trilhos e termina de uma forma bem subjetiva – o que não é ruim, pois obriga o leitor a “ruminar” os acontecimentos anteriores e a ligar os pontos. Nota: 8,5. Sensação: assistir uma sessão da tarde sozinho, relembrando os velhos tempos e imaginando como tudo seria se suas escolhas tivessem sido diferentes.

6-O Paradoxo do Avô

Meu próprio texto. Só deixo a dica: há duas histórias paralelas. Nota: NDA.

7-Pandorga

Um texto bastante lírico, com ares de folhetim e toques de fantasia. Possui um enredo peculiar, exótico, onde caravelas voadoras atravessam o espaço e o tempo. Seria mais uma história típica de piratas, não fosse os regionalismos e a descrição vívida de cores e sensações. Ganha muito por isso, mas a linguagem “rústica” pode afastar alguns desavisados. Todavia, confesso: apesar de gostar do estilo do autor, a história (em si) está um tanto complexa nas entrelinhas, e não sei se a compreendi por inteiro. Resumindo: imagine uma vila carnavalesca, na época do descobrimento, recebendo a visita inesperada de naves espaciais em forma de barco. Esse conto evoca sensações diversas. O título fará sentido após a primeira leitura. Nota: 8,5. Sensação: sonhar que se está voando, com tiras coloridas presas aos dedos das mãos e dos pés, em direção a um pôr-do-sol carmesim.

8-Prisioneiro do Tempo

Um conto aparentemente simples, empregando a premissa clássica de looping temporal. A diferença é que a história possui um ar mais intimista, romântica, de certa forma, mais tupiniquim. O enredo exige atenção, devido às suas constantes idas e vindas, mas tudo se encaixa no decorrer dos acontecimentos. Portanto, não estranhe certas atitudes dos personagens, como onisciência – tudo é explicado em seu devido tempo. É um conto com uma temática futurista, mas centrado no passado, o que dá um ar levemente Noir. As quebras temporais funcionam, mas quase chegam ao ponto de confundir. Só não entendi muito bem a ambiguidade proposital da jornalista que inicia e fecha o conto; faltou desenvolver melhor suas motivações. Apesar de ser um texto em que a suspensão de descrença precisa ser melhor trabalhada, o desenvolvimento flui muito bem. Nota: 8,0. Sensação: relembrar um amor perdido dos tempos de infância e reencontrá-lo após muitas décadas, sabendo que, apesar da idade, sua personalidade se manteve a mesma; e, quem sabe, ainda há uma chance.

9-Quinze Minutos

Uma história mais filosófica e intimista, com ares de fantasia urbana. O cotidiano do protagonista, aparentemente simples, cativa pela imersão que proporciona. Acompanhamos a história de um sujeito em transição, de mudança, onde o sobrado e um relógio antigo são os coadjuvantes inanimados. O desenvolvimento é lento, mas bem intencionado, afinal, quando chegamos ao ápice, já estamos completamente envolvidos, embora o anticlímax jogue um balde de água fria. No final, temos uma aventura simples, carregada de simbolismos e entrelinhas, onde o personagem principal é salvo de uma maneira um tanto monótona. Esse texto é daqueles em que a viagem importa mais que o destino. Nota: 9,0. Sensação: tomar chá, pontualmente às cinco horas, na casa vitoriana de um aristocrata excêntrico.

10-Tempo Negado

A organizadora nos brinda com um texto mais romântico, onde passado e presente se confundem. A melancolia, aliada à tristeza da protagonista, toca fundo nas feridas do arrependimento, criando uma ode às escolhas perdidas. Contudo, é um texto leve, com a temática explorada de forma bastante sutil. Ao final, fica subentendido que a personagem é a própria viajante do tempo, apesar do desenvolvimento passar a ideia de que o “outro” é o verdadeiro. Com uma mensagem poderosa nas entrelinhas, a coletânea fecha de forma simples, agradável e melancólica. Nota: 8,5. Sensação: acompanhar os pingos de chuva na janela, num dia chuvoso, sem eletricidade alguma, com um mascote no colo.

***

Nota Geral: 8,4

Veredito: Um livro de ficção leve, de leitura rápida, com várias camadas e entrelinhas em cada texto, onde o otimismo e a melancolia andam lado a lado, não sendo necessário apelar de forma constante aos maquinários fantásticos.