Invenções da Humanidade – A Saga (II) [26.12.10]

A velocidade nauseante com que a nave atravessava o espaço não chegava a incomodar o homem, pois de seu ponto de vista estavam relativamente parados. Apenas algumas pequenas explosões cósmicas (tão pequenas quanto as que criam estrelas de primeira grandeza), o lembravam de que estavam em movimento.

Passado o susto inicial, o homem procurou identificar onde estava e o que o cercava. Ao tentar correr para frente, deu de cara com uma espécie de parede transparente. Não chegava a ser vidro, mas conseguia produzir uma sensação de dor igual. Sua mente criativa procurava entender para que serviria aquilo e o que seus criadores estavam pensando no momento em que a fizeram.

Desta vez aproximou-se com cautela e percebeu que não estava sozinho. À sua frente estava uma cesta de seu tamanho, contendo muitas frutas. Uma delas parecia uma banana verde. Havia maçãs, uvas, pêssegos e melancias. À sua direita estava uma espécie de felino, de tamanho médio. Seria parecido com um leão, se não possuísse seis patas. À sua esquerda havia uma formação estranha de plantas, que formavam um organismo maior. De todos os seres que o cercavam, estes pareciam ser os mais perigosos. Afastou-se.

Encolheu-se no canto quanto um dos exploradores reapareceu. Quando a banana saltou da cesta de frutas, abriu suas “asas” e grudou suas pétalas dentadas no braço do explorador, percebeu que estava incrivelmente errado em suas observações. E ele que pensava em comer uma delas quando ninguém estivesse olhando…

– Mike! Você disse que os seres de Flora eram inofensivos!
– Flora? Eu disse Terra! E afaste-se da maçã!

O homem nunca havia ficado com medo de uma maça antes, em toda sua vida. Sua fome desapareceu ali, naquele exato momento. Os seres eram pesquisadores e pelo visto levavam uma amostra consigo de cada planeta. Uma grande idéia surgiu em sua mente: inventar um aparelho para coçar as costas. Não, não era isso. O que era mesmo?

Procurou criar forças para proferir algumas palavras aos seus seqüestradores. Como não obteve nenhum resultado após muito esforço, resolveu apenas bater no vidro. Iria se lembrar disso e um dia inventaria uma forma de se copiar, apenas para dizer-lhe na cara: medroso!

– Você lembra do último planeta em que estivemos? – Allurelleirohar.
– Aquele que irá sofrer uma catástrofe iminente? – Mike.
– Isso. Tem um negócio aqui que peguei antes de partirmos. Eu acho que ele fala.

À vista dos exploradores (seres de vários metros de altura e dotados de uma consciência superior coletiva), o homem parecia apenas um brinquedo.

– Oi… – foi a primeira coisa inteligente que o homem pensou em dizer.

Aquele contato transcendente entraria para a história e seria tema de um livro futuro, intitulado “Coisas que você não deve dizer ao encontrar uma alienígena pela primeira vez”, contendo capítulos úteis e informativos, como “Maneiras ridículas de iniciar uma conversa com um ser dez vezes mais alto que você e com capacidade mental mil vezes maior”.

Curiosamente (assim como todas as frases curiosas são, e curiosamente sempre iniciam com a palavra “curiosamente”), de fato, este livro evitou que uma guerra interplanetária ocorresse entre duas raças distintas, habitantes da região Delta de Alfa Centauro. O embaixador de Alfa convocou uma reunião para ser assinado um tratado de paz; mas tudo iria por água abaixo simplesmente se após cumprimentar o embaixador de Centauro, dissesse: “Sente-se.” Os habitantes de Centauro eram (como o nome sugere) centauros. Todos sabem que cavalos não sentam, a menos que fossem treinados por um circo, o que não era o caso. “Sente-se” e “circo” eram consideradas palavras ofensivas por lá.

Devido ao incidente evitado, o autor de livro ficou famoso e rico. Infelizmente morreu de causas misteriosas dias após ter pedido uma maior porcentagem de lucros em cima de seus direitos autorais. Outro fato curioso é que, um mês após estes eventos, seu editor lançou um livro intitulado “Coisas que você não deve dizer ao encontrar seu editor pela segunda vez.”

Certo, mas por que foi necessário um desvio da narrativa principal justamente no ponto alto da história? A resposta mais simples é: para dar tempo à mente do escritor, para que ele descrevesse com exatidão a emocionante e inspiradora resposta que um ser multidimensional daria a um ser humano que havia acabado de estabelecer um primeiro elo de contato extraterrestre. O alienígena o olhou de cima a baixo e disse:

– Oi.

O homem tentou demonstrar interesse nos afazeres do onipotente ser e resolveu começar perguntando seu nome. Era o melhor que podia fazer no momento.

– Qual… Seu nome?
– Mike! A criatura perguntou meu nome!
– Comportamento estranho. Todos que encontramos até agora atacaram primeiro, ofereceram um contrato para um show psicodélico ou nos mandaram acender um fósforo em Júpiter. Aproveite! E registre tudo!

Sentindo-se feliz com a aprovação de seu chefe, prosseguiu.

– Meu nome é Allurelleirohar.
– Allu… ?
– Allurelleirohar.
– Nossa, cara! E seu sobrenome?
– Sobrenome?
– É. Na Terra temos dois nomes: um te dão quando você nasce, e o outro serve para xingar ou chamar a atenção. Quando dizem os dois juntos, então… Sai de baixo. Quando eu inventar uma utilidade para um terceiro, devo colocar um desses nos meus filhos…
– Hum. Deve ser o registro de casta. É Chandrassekar.
– Meus pêsames. Vou te chamar de “cara”, é mais fácil.

O homem começava a criar coragem e ser dono da situação. Se todos os seres espaciais fossem tão burros como alguns de seus amigos, teria muito a lhes ensinar.

Interessante saber que, apesar de todos utilizarem a palavra “burro” para definir alguém de mentalidade inferior, ou não utilizada, ninguém se deu ao trabalho de perguntar ao pobre animal o que ele achava de sua raça ser apenas uma classe pejorativa de adjetivo humano. A única resposta de que se tem registro foi justamente dos seres que haviam capturado o homem. Perguntaram a um deles seu ponto de vista sobre este assunto tão polêmico e o que se ouviu foi o seguinte:

– Se a paca não emburra, por que o burro empaca?

(CONTINUA…)

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