Terror na Estação [26.10.13]

meteoro_russia– Atenção! Colisão iminente!

Assim começava um novo dia na estação espacial brasileira. O sonoro sistema de emergência interrompeu o descanso dos astronautas, a começar por Gerúndio, o mais experiente da turma e comandante interino.

– Mas que m… É essa? Ariosvaldo! Acorda! Desligue logo esse alarme irritante e essas luzes vermelhas. Isso aqui tá parecendo um…

Os dois, junto com o restante da equipe, avaliaram de forma demorada todos os dados que Melissa registrou.

– Então.
– Sim?
– Pois é.

Coçou o queixo.

– Alguém entendeu alguma coisa?

A resposta negativa de seus colegas o recordou do objetivo da missão: colocar em órbita a primeira estação espacial brasileira. Ponto. Eles estavam lá apenas para informar a qualquer intruso que aquele território pertencia ao Brasil e dar um “tchauzinho” de vez em quando para a câmera jornalística instalada acima dos controles; item que suas respectivas famílias possuíam acesso.

Alguns já eram formados, outros conheciam apenas o básico. E uns poucos estavam mesmo era fugindo de suas responsabilidades, ou esposas.

– Melissa! Seja mais específica, por favor.

A (única) inteligência artificial reorganizou os dados, retirando os cálculos complexos, gráficos tridimensionais e uma receita de bolo de chocolate. Sobrou apenas uma frase. Olharam de forma curiosa para a tela quando esta exibiu “é tetra!”.

– Isso não faz o menor sentido!

Quatro meteoritos de tamanho considerável surgiram no visor externo. Com uma calma impressionante, o comandante Gerúndio exclamou:

– Ah. Era isso. Ligar propulsores!

Esticou o braço e apontou o indicador para o horizonte. Permaneceu assim uns minutos até que Ana se aproximou cautelosamente.

– Senhor… Não temos propulsores disponíveis. A estação está em órbita geoestacionária.
– Então; para as cápsulas de fuga!

Fez a mesma pose.

– Senhor…

Suor escorreu por seu rosto. Gotas flutuaram ao seu redor, o que lhe conferiu uma aparência bizarra.

– Melissa. Temos quanto tempo até a colisão?
– Aproximadamente vinte e quatro horas.
– Não podemos fazer nada?
– Não.

Enquanto o semblante da maioria mudou drasticamente, toda a equipe foi incentivada a gravar uma última mensagem às suas famílias. O comandante permaneceu por último.

– Sara… Se eu não voltar, fique sabendo que coloquei toda minha aposentadoria em seu nome… Tem mais uma coisa… Eu tenho mais três filhos e duas filhas que você não conhece… De cada família… E…
– METRALHADORAS ACIONADAS!

Ariosvaldo cuspiu seu último café na cara de Ana.

– Mas você disse que não podia fazer nada, Melissa!
– Eu disse que VOCÊS não podiam fazer nada. Não disse que EU não podia fazer nada.
– Por que demorou tanto?
– Meu sinal caiu enquanto tentava ligar para o Magrão.
– Magrão?
– É. Ele achou que seria uma boa vender armas para a Soyuz aqui ao lado. Mas era segredo. Até agora.

Os disparos foram efetuados enquanto Gerúndio gravava sua mensagem. Os meteoritos despedaçaram-se por completo. Sucesso total. Ariosvaldo correu para a cabine de voz.

– Comandante! Estamos salvos! Não vamos mais morrer.
– Não vamos? Mas que droga!
– Hein?
– Se minha mulher receber a mensagem, ela vai querer subir aqui. Rápido, antes que ela ouça. Corte os fios! A comunicação!
– Melissa já enviou…
– Sim! Sou muito eficiente! E já liguei a câmera para mostrar que todos estão bem.

O áudio da Terra foi ligado e um grito fantasmagórico percorreu toda a estação, seguido por uma enxurrada de informações.

– GERÚNDIO! Safado, cachorro… D’uma égua… E quem é essa Melissa? Já tá de chamego com outrazinha é? Tem filhos com ela também?

O áudio permaneceu recebendo mais um monte de coisas impronunciáveis. Melissa, antes de se retirar, indagou ao comandante:

– Deseja mais alguma coisa?

Suspirou.

– Água… E outro asteroide.

(…)

Não muito tempo depois, um pedaço de meteorito atingiu a Rússia. Soyuz, indagada sobre o que havia ocorrido, fez questão de manter segredo. Reza a lenda que a resposta foi “arrma brrasileira”…

***

(Nota: este conto foi escrito originalmente para o desafio literário relâmpago (10) do site “A Irmandade”, tendo a temática humor).

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