Aquilo não era um homem… [24.01.13]

caramujo_abstrato… Era uma máquina. Possuía duas engrenagens gigantes e douradas onde deveriam estar seus braços. Suas pernas se estendiam por uma longa base de ferro. Não havia pés, somente dois rolamentos de prata interligados por uma fina barra circular de aço. Seu tronco ainda era humano, no entanto, sua cabeça era uma chave inglesa. De alguma forma, ainda estava vivo.

Não sabia como havia chegado ali. Olhou para os trilhos embaixo e ao redor e acompanhou-os até o topo. Estava em declive. Tomou cuidado para encaixar corretamente os rolamentos nele, afinal, flutuava sobre o vazio.

Virou-se para a esquerda. Estrelas. Virou para a direita. Nebulosas. A única saída era seguir em frente. Algo impulsionou suas engrenagens.

A montanha russa estelar desembocava em um buraco profundo e ameaçador. Pedaços de gelo e pequenos meteoritos giravam em sentido anti-horário, criando uma espiral borrada pela formação de protoplanetas. Chegou a um ponto em que era possível avistá-lo.

Os trilhos terminaram de repente. Voltar? Não conseguia. A guinada surpresa de noventa graus fez seu serviço. Serpentinas explodiram em sua face, enquanto caía. O que se seguiu foi a completa escuridão.

(…)

Aquele era um mundo diferente. Não conseguia se mexer. Mas os trilhos permaneciam. Mesmo assim, não eram trilhos quaisquer. Pertenciam à ferrovia Madison.

Frederik aproximou-se da mesa de mogno, onde se encontrava sua maquete preferida. Estranhou aquele objeto em cima. Quem o havia colocado lá? Levou-o até seu pai.

– Pai o que é isso?

Ele, pacientemente, retirou seu monóculo, guardou-o no paletó preto e explicou.

– Ah… Vejo que encontrou o Senhor En-glesa. Ele está na família há mais de quatro gerações. Uma relíquia construída por meu avô, quando brincar era quase proibido no início da era industrial. Guarde-o com você.

Satisfeito com a resposta, voltou à maquete. Retirou o trem original e o encaixou na metade dos trilhos, que flutuavam sobre um conjunto de ímãs. O desenho futurista de sua caixa de cereal completava o cenário. Abaixou a chave e fechou o circuito. Apreciou o momento.

No entanto, os trilhos terminaram de forma brusca, conforme planejado. A guinada surpresa de noventa graus fez seu serviço. Caiu em um buraco forrado por travesseiros. Seu peso jogou para cima as fitas coloridas, espalhando-as pelo chão. Assim como seu pai já havia feito há muito tempo atrás.

Um buraco de onde jamais sairia, a menos que a imaginação de Frederik permitisse… Foi até a cozinha.

(…)

– Sonhando acordado?

Perguntou seu amigo pássaro, dono de uma cabeça de concha e três pares de asas formadas por facas serrilhadas. Voltou a si e deixou seus devaneios de lado.

– Sim. Tive um pesadelo bizarro. Um ser de carne e osso, um gigante bípede, brincava comigo sobre uma estrutura em miniatura. Estranho, né?
– Bota bizarro nisso! Deve ter sido a nuvem de tempestade elétrica que você pegou no caminho. Ela costuma desorientar. Culpa dos peixes voadores e seus tentáculos que serpenteiam.

Continuaram conversando tranquilamente pelo caminho, já sem trilhos, que levava à metrópole. O ápice das construções artísticas. Uma montanha granulada. Inúmeras curvas sinuosas que se erguiam até os céus, dispostas de forma que pudessem refletir a luz do astro-rei…

O Ovo Estrelado.

***

(Nota: essa é minha primeira tentativa no gênero New Weird. E ainda estou tentando entendê-lo…).

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