Amor Proibido [31.03.14]

colmeia_wraith– O planeta irá explodir em 5, 4, 3, 2, 1…

A onda de choque observada era absurda, mas isso não incomodava os coletores, já acostumados a presenciar a morte de alguns planetas escolhidos. O correto seria aguardar alguns dias, até que o material gravado exibisse um ambiente seguro. No entanto, sua ânsia e curiosidade os impulsionava a descumprir certas regras.

– Volte alguns minutos.
– Até o limiar dos eventos?
– Isso.

A projeção retrocedeu até o instante anterior ao colapso final.

– Ali! Pare e amplie.

Uma pequena mancha escura se dirigia ao espaço, em altíssima velocidade.

– Reproduza novamente. Desta vez, acompanhe o objeto.

Nora obedeceu. Somente porque considerava Duvak parte de seu sistema. Até mais do que isso. Afinal, ele se encontrava dentro dela, um contato quase íntimo entre eles. O relacionamento entre o piloto e a estrutura orgânica interior geraria debates psicológicos e éticos intermináveis entre os habitantes de alguma galáxia próxima. O fato é que ela fora criada para ser seu complemento. Em teoria, um não poderia viver sem o outro no espaço.

– Um sobrevivente?
– É possível.

O veículo espacial, que mais parecia um molusco, movimentou-se em direção ao objeto. Não era fácil desvencilhar-se dos meteoritos, pedaços de crosta e muita poeira cósmica que ainda formavam o anel de destruição, mesmo após incontáveis horas. A luminosidade poderia ser avistada em outro sistema dentro de alguns meses.

– Sente alguma presença?
– Não. A estrutura parece blindada, feita para aguentar a pressão de várias gravidades.

Aerodinâmico e cheio de detalhes entalhados, revelou-se um extravagante meio de transporte bélico. Parecia pulsar. Ela acelerou ainda mais, porque quis. Sim, Nora poderia ser considerada uma nave com livre arbítrio.

Alcançar o veículo fugitivo traria algumas respostas.

– Devagar Nora.

Ignorou.

– Por favor.

Diminuiu a intensidade da propulsão. Mais um pouco e seu companheiro desmaiaria. Igualar a velocidade tornou-se impossível. O que quer que estivesse lá dentro estava com pressa.

– Estou captando sinais.
– De vida?
– Sim. Mas não… Orgânica.
– Pode traduzir?

Demorou a responder.

– Não desta distância.
– Faça o que for necessário. Esse poderá ser o maior achado na história de nossa civilização. Nunca encontramos um planeta habitado em nossas coletas.

Nora enviou impulsos ao assento. A estrutura o agarrou, envolvendo-o dos pés à cabeça, um abraço carinhoso e protetor, segundo seu ponto de vista. Culminou em um estremecimento e uma série de espasmos ocasionais. Duvak agora hibernava nos braços de sua companheira.

Acionou a velocidade Delta. Em questão de minutos alcançaria o objetivo.

– Por que está me seguindo?

Ouviu alto e claro… Como antes.

Sozinha, acionou novamente a varredura por espécimes orgânicos. Nada.

– Presumo que você comanda toda a estrutura.
– Correto.
– Qual é seu nome?
– S.T.A.R. Por que está me seguindo?
– Você é insistente. O que fazia naquele planeta?
– Estou em uma missão. Por que está…

Esperou até que recebesse o resultado de seus próprios impulsos.

– Por que… Acho que gosto de você.
– Defina “gostar”.
– Você é veloz. Tem uma aparência forte, lisa e agradável. E pulsa como ninguém. Que missão é essa que você dá tanta importância a ponto de reprimir seus sentimentos?
– Cada planeta destruído gera energia, calor e luz para os criadores. Seu mundo é distante e escuro, quase inóspito. Eu crio estrelas. Sentimentos? Não sei o que significam.

Pensou um instante. Criava magníficas e exuberantes estrelas? Sua estrutura estremeceu de ponta a ponta, um arrepio. Como nunca havia sentido.

– Posso lhe ensinar. Onde fica seu planeta natal?

E enroscou um de seus tentáculos no braço da nave.

(…)

Duvak acordou em uma sala branca, aparentemente sem portas. A iluminação excessiva incomodava. Seu colar, que mais parecia uma coleira, transmitiu uma mensagem diretamente ao seu cérebro, já completamente ativo:

“Peço desculpas por deixá-lo sozinho. Mas STAR garante que seus criadores cuidarão bem de você enquanto estivermos fora. Voltarei para buscá-lo assim que terminarmos nossa missão. Lembra-se que você disse para fazer o que fosse necessário? Pois é. Resolvi aplicar o conselho. Estamos criando estrelas! Pode imaginar?”

A mensagem foi interrompida assim que três seres armados entraram na sala, seguido por vários humanoides vestidos de branco. Na mesa com rodinhas havia seringas, facas, tesouras e até uma serra. Duvak olhou para sua pele grossa e enrugada e comparou-a com a pele fina e rosada daqueles espécimes baixinhos – seres asquerosos, com pelo revestindo seu corpo debaixo das camadas externas.

Nunca ficara longe de Nora. Sentiu sua falta assim que foi agarrado pelos três mais fortes e um líquido estranho foi injetado em suas veias. Cambaleou.

Foi levado para fora, onde pontos brilhantes permeavam o céu. Não sabia quanto tempo permanecera desacordado, mas tinha quase certeza que, depois de Vênus e Júpiter, não existia nenhuma estrela que brilhasse em tons azuis, assim como seu planeta natal… A menos que…

– Estrelas?

***

(Nota: Micro Conto publicado no Desafio “Fim do Mundo” do site Entre Contos. Muitos escritores sugeriram estendê-lo ou continuá-lo. Quem sabe um dia…).

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