Utopia [06.07.14]

redomaI – Descendência

– Pare de amaldiçoar Sasami. Se ela te escuta…
– Mas quem se importa? Ninguém sabe se ela existe mesmo.
– Não duvide.
– Ouço isso desde criança. Esse mito foi criado apenas para os mais jovens, mas o quadro mental é tão duradouro que permanece em alguns adolescentes, como você.
– Não percebe que há alguém cuidando de nós, o tempo todo, desde que nascemos?

Permaneceu calado. Discutir com seu irmão mais novo era perda de tempo.

A colheita neste período estava mais fraca que os outros anos. E parecia piorar cada vez mais. Se alguém realmente estava cuidando deles, não estava fazendo seu trabalho direito, fato que o levou a maldizer sua “figura protetora”.

Apoiou-se na enxada por um instante e observou o horizonte, como sempre fazia.

O brilho da enorme estrela próxima os acompanhava através do dia. Ao cair da noite, seu espectro de luz espalhava-se por toda aquela frágil estrutura de vidro, o céu, como as crianças aprendiam desde cedo.

Suspirou. Do jeito que as coisas andavam em Physis, logo teriam de deixar aquelas terras. O problema é que não havia muitas opções. O mais novo insistiu.

– Ei!

Seu irmão não tirava os olhos da terra.

– Diga.
– Já esteve próximo aos limites?
– Várias vezes, com o pai.
– Isso não é proibido?
– Se eu estivesse sozinho, sim. Mas não tem nada demais.
– Nada mesmo?
– Bem…

Arregalou os olhos e esperou.

– Tem uns reflexos estranhos na região. Há um boato por aí… Sobre aparições.
– Pode ser outra coisa!
– Como o que?
– Você não tem imaginação mesmo, hein? Pode ser o fim de nossa morada. Não é o que os adultos conversam e nos ensinam? Aliás, exigem que nos afastemos.
– Ah, você diz os limites físicos?
– Sim. Nunca vi de perto. Deve ser legal avistar o que tem lá embaixo, através do Penhasco. Assim como descrevem.
– O pai vai procurar novas terras semana que vem. Poderíamos ir junto. Aí você tira essas ideias da cabeça. Verá que não é nada demais.
– Se bem que…
– Não vai me dizer que Sasami não aprova.
– Esses relatos são de pessoas que desapareceram!
– Se desapareceram, como alguém contou a história?

Aquilo fazia sentido.

Voltaram ao trabalho. O calor os castigava, mesmo assim, não podiam deixar para trás os alimentos que a terra ainda fazia o favor de dar-lhes, sem cobrar nada em troca.

A estrela já percorria o horizonte em busca de refúgio. Recolheram as ferramentas e subiram na colheitadeira, uma potente máquina agrícola, um tanto rústica.

Seu pai demonstrava uma expressão preocupada. No caminho, os filhos pediram autorização para participarem da comitiva. Uma nova terra, fértil, era essencial. Não era algo de seu agrado, mas logo eles teriam que aprender a cuidar de si mesmos.

A mãe aguardava-os ansiosa. Procurou abrir logo as portas do celeiro. A colheitadeira, junto com as cargas, entrou lentamente. As portas se fecharam.

No tão esperado dia, os três saíram com mochilas nas costas, ouvindo apenas parte das inúmeras recomendações de sua progenitora. Não era nada fácil cuidar daquela família.

O irmão mais novo foi o primeiro a quebrar o silêncio.

– Pai, você acha que Sasami está descontente conosco?

Coçou a cabeça. Do jeito que as coisas andavam, era bom ter esperança e se apegar em algo. Procurou lembrar-se das histórias que ouviu em sua infância.

– Dizem que Sasami caiu do céu, como uma estrela flamejante a gastar seu último combustível, hibernando durante os milênios que se seguiram. Ao acordar, buscou a superfície mais adequada e passou a construir uma redoma a fim de proteger os organismos vivos. Ou seja, não acho que uma entidade que se dispõe a cuidar de nós, de repente se torne vingativa.

O irmão mais velho apenas balançava a cabeça. Lenda para crianças. Cortou os devaneios com uma informação científica. Apesar de serem lavradores natos, as famílias tinham a obrigação de estudar a história dos Antigos, devidamente adaptada.

– O mais estranho é que nossa estrela não queima. Apenas brilha.

O mais novo ficou pensativo. Conversaram mais um pouco ao longo do caminho, mas apenas assuntos triviais. Após uma hora, chegaram aos limites de sua propriedade. A comitiva se separou minutos antes. Cada um conhecia muito bem suas terras.

Aquele era um local inexplorado. Enquanto o pai analisava a metragem, seus filhos afastaram-se lentamente, movidos pela curiosidade.

– O que será que tem adiante?
– Cuidado aí. Não podemos nos afastar muito.
– Medroso.
– Não me provoque.

Olhou para trás e resolveu seguir o mais novo. A folhagem, o mato e a grama ao redor tornaram-se diferentes. Uma terra virgem, de fato. Caminharam por entre os arbustos, desvencilhando-se das raízes maiores que brotavam naquele solo fértil.

Seu pai era apenas um ponto distante, quando resolveram parar.

– Chega. Vamos voltar.
– Pelo menos podemos plantar a vontade aqui.

Quando se virou, um minúsculo feixe de luz o atingiu. Piscou algumas vezes, permanecendo de costas para seu irmão e o caminho de volta. Poderia ser um reflexo? Mas do quê? Continuou.

O mais velho já estava no meio do caminho quando notou sua falta.

Uma sensação estranha percorria seu corpo. Notou aquele estranha luz tremeluzir mais algumas vezes. Retirou os galhos e folhagens que atrapalhavam um maior contato visual e parou logo em seguida. Como uma estátua, diante de tamanha revelação.

Uma visão de tirar o fôlego. Aquela era a primeira vez que presenciava os verdadeiros limites de seu mundo. E, como se as lendas fossem verdadeiras, pôde notar várias aparições, como seu irmão mais velho havia dito.

Aproximou-se e tocou. A estrutura envidraçada emitia uma sensação de calor incomum. Encostou o rosto e tentou calcular suas dimensões. Impossível. Estendia-se para o alto e lateral de forma quase infinita.

Foi nesse instante que a parede descomunal se dissolveu, puxando-o para dentro. O pavor tomou conta de todo seu ser. Cairia no penhasco do fim do mundo? Seria o primeiro a presenciar os limites físicos, mesmo que por poucos instantes antes de morrer?

Os milhares de pensamentos cessaram ao notar que nada ocorreu. Sem penhascos, sem abismos, sem dor, sem morte. O chão ainda estava ali. A parede ainda estava ali. Parecia estar no mesmo lugar, só que do outro lado. No entanto, sem retorno.

Naquele dia, para sua família, ele desapareceu.

II – Legado

Sentou-se à beira do matagal e aguardou. Com certeza alguém viria buscá-lo.

Já era noite quando notou um estranho fato: havia luz. Olhou para o céu e percebeu que a estrela não se movia. A ajuda finalmente veio, mas do “lado errado”.

Um senhor e uma jovem acharam-no tremendo e encolhido, escorado na estrutura pela qual havia atravessado. Quem eram aqueles que habitavam o outro lado? E por que seus rostos lhe eram familiares? Aceitou a mão estendida, com certa desconfiança.

No caminho para o abrigo, o senhor, demonstrando uma linguagem corporal que transpirava experiência, foi o primeiro a falar.

– Surpreso ao perceber que não existe o Penhasco?
– Sim, mas eu sabia que Sasami me protegeria.
– Sasami? Filho, o que lhe contaram quando era criança?

O rapaz prosseguiu relatando suas experiências, contando histórias a respeito de sua família e a situação atual da colheita. O solo ao redor parecia diferente do local atravessado. E notavelmente mais parecido com seu antigo lar.

– Me desculpe, jovem. Mas o nosso problema de colheita é justamente Ela.
– Como assim? Ela nos protege, nos dá luz, oxigênio, alimento…
– Olhe para cima.

A estrela permanecia no mesmo local onde estavam à uma hora. Não se movia. À sua frente, escuridão.

– O que vocês fizeram a Ela? Amaldiçoaram seus trabalhos? Solte-me!

Já sem paciência, levou o garoto para dentro de sua moradia, mexeu em alguns botões e toda a gigantesca estrutura sombria ganhou um tom efêmero. Em seguida, milhares de luzes se acenderam.

E, pela segunda vez, seu coração quase saiu pela boca. Dentro do veículo espacial encontravam-se três esferas espelhadas, parcialmente destruídas. Equivaliam ao tamanho de cinco adultos. Em cada uma delas, numeradas de um a três, encontravam-se os dizeres: “Satélite Artificial de Serviços Autônomos de Manipulação de Informações”.

Desmaiou. Era informação demais para seu pequeno cérebro.

Levaram-no para o habitat sete e o deitaram no dormitório higienizado. A jovem permaneceu curiosa.

– Uma sociedade agrícola?
– Sim. Depois de muitos anos, surgem novas gerações. Com o tempo esquecem-se da verdade e passam apenas a viver. Seu legado de estrelas fica para trás e as lendas começam a surgir, seguido por um culto ao desconhecido. Temos essa necessidade de respostas desde que nascemos, no entanto, alguns se apegam às míseras costuras da verdade e passam adiante, cheias de buracos.
– Entendo.
– Este garoto, por exemplo. Crê cegamente que nossos satélites orbitais, um sol artificial, o protege e dá alimento. O que ele não sabe é que o número quatro está falhando e o cinco recém entrou no ciclo final. Temos mais alguns anos para fazer essa “coisa” entrar em funcionamento, antes que não tenhamos um legado a deixar… Além da escuridão.
– O ouvi falando no Penhasco.
– Isso é outra coisa que vai surpreendê-lo. Amanhã o levarei para casa e ele próprio decidirá seu destino, assim como nós já fizemos. Tenho certeza que ele nos odiará menos depois de entender a complexidade da situação. Algo me diz para confiar no garoto.

Na manhã seguinte, sem uma luz natural para lhe acordar, permaneceu dormindo até que seu corpo resolvesse avisá-lo. Levantou de susto. Por coincidência, ou não, a jovem o aguardava na porta do habitat. Isso o acalmou um pouco, mas logo teria de se afastar daquelas pessoas.

Quando recebeu a notícia de que seria levado para casa, animou-se. Ajeitou suas coisas sem dizer nada e esperou do lado de fora da “baleia metálica”.

– Bom dia. Antes que diga qualquer coisa, vou lhe mostrar nosso povoado. Não se preocupe. É o mesmo caminho para sua casa. Você terá muito que contar aos seus familiares.

Não lembrou de ter visto se quer um povoado enquanto era trazido até ali. Mas, para tipos como aquele, que se atreviam a colocar o nome da protetora em máquinas, podia esperar qualquer coisa.

O senhor começou a guiá-lo através da mata restante, sempre com a jovem a segui-lo. Pelo menos possuíam um senso familiar forte. No entanto, não pôde se conter.

– Estamos indo para o lado errado!
– É o que você pensa, meu jovem.

Olhou para trás várias vezes. Subiram uma pequena colina e, lá de cima, puderam avistar a cidade mecanizada de Hiperbórea. Avistou maquinários que nem seus mais extravagantes sonhos podiam conceber.

Um pouco mais adiante, o intrigante reflexo trazia novamente aquela sensação de pavor. Inconscientemente deu um passo para trás.

– Não tenha medo. É para lá que vamos. Quero que observe tudo e conheça nosso dia a dia.

Aquela atitude era muito estranha. Sentia uma ponta de satisfação e entusiasmo em suas palavras. Por acaso, ele, era importante, de alguma forma? Não sabia dizer e nem se atreveria a perguntar.

Desceram a encosta. As pessoas cumprimentavam, acenavam, trabalhavam e, acima de tudo, viviam. Tudo muito parecido à sua terra natal, com exceção, é claro, do maquinário fantástico. Talvez aquelas pessoas não fossem tão ruins assim.

A caminhada de duas horas foi realizada no mais completo silêncio. Era de suma importância que ele assimilasse tudo o que via e aceitasse as situações do seu jeito.

Os reflexos se tornaram mais fortes. Observou vultos novamente.

– Jovem. Preciso que entenda uma coisa. A única forma de nos encontrarmos novamente…

Em sua mente a frase “jamais voltarei aqui” surgiu. O senhor continuou.

-… É se você utilizar o mesmo caminho. A estrutura que está à sua frente ressoa apenas do lado interno. Ao atravessá-la, não poderá voltar atrás.
– Não pretendo fazer isso.
– A maioria volta. Cedo ou tarde. Lembre-se disso.

A jovem beijou seu rosto e se despediu. Vermelho e sem jeito, se apoiou como fizera antes e aguardou. Pediu para que Sasami o protegesse. E, num piscar de olhos, foi engolido pela redoma, como uma pedra atirada em um lago.

– Será que ele volta?
– Quando começar a contar o que viu, ninguém acreditar e acharem que está ficando louco…
– Isso é um sim?
– Talvez.

Queria vê-lo novamente. Tão cedo quanto fosse possível.

– Eu sei. Também tenho uma sensação familiar.

O jovem sentiu como se estivesse sendo jogado por várias mãos. O chão ainda estava ali. Abriu os olhos. Viu o conhecido descampado e limites agrícolas. A estrela estava alpina. Andou. Reconheceu os lugares ao redor e sentiu um profundo alívio.

Após mais duas horas de caminhada, reconheceu aquela plantação. Ao avistar, no horizonte, uma moradia simples, mas aconchegante, aprendeu uma das maiores verdades a que estava destinado.

Seu mundo era, afinal de contas… Redondo.

Nada de penhascos, abismos ou linhas retas com fim abrupto.

Aquela era sua casa. Olhou para onde ia. Olhou de onde veio. Teria ido para trás ou para frente? Teve de sentar e raciocinar. Aquilo era novo, inconcebível. Seu mundo era uma redoma esférica com duas barreiras separando cada lado.

Ouviu gritos. Pessoas correram em sua direção. Sua família. Em meio à confusão de frases, deu atenção à apenas uma.

– Você sumiu por dois dias!

Seus pais e irmão o abraçaram, mesmo absorto em seus pensamentos. Foi levado para casa, andando de forma automática enquanto procurava entender o que havia ocorrido.

E assim ficou durante dias…

Seu irmão mais velho foi o primeiro a ouvir suas histórias. Em seguida seus pais. Não bastava a terra não estar produzindo direito? Agora precisavam preocupar-se com a saúde mental de seu filho mais novo? Cochichavam enquanto ele não estava por perto.

– Meu pai, quando era novo, contava essas histórias antes de desaparecer pela segunda vez.
– Devemos levá-lo ao templo de Sasami?
– Você ainda acredita nisso?
– Temos que nos apegar a algo. Você mesmo disse.
– Está certo. Chega de relatos de máquinas fantásticas e cidades de metal.
– E o absurdo de mundos redondos! Sem fim! Onde já se viu tamanha loucura?

Ainda conseguiu ouvir a última frase, antes de partir com uma mochila nas costas. A intenção era que realmente o seguissem e pudessem, nem que fosse apenas por um segundo, ter um vislumbre da verdade.

Ajudaria seus pais, sua geração e seu povo. De formas inimagináveis.

E, depois de muito tempo, finalmente entenderia o que aquele senhor estava dizendo. Seu avô.

– A maioria volta. Cedo ou tarde. Lembre-se disso.

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