O Farol de Cassiopeia [29.08.14]

cas_aA sonda Sigma acabava de entrar em espaço desconhecido. Após uma longa jornada cheia de contratempos, encontros nada amigáveis com meteoritos e turbulências cósmicas ao deixar o sistema solar, aproximava-se de uma incrível e magnífica nebulosa mítica.

Seus construtores deviam orgulhar-se por ainda estar inteira. Afinal, apesar de ter sido criada com tecnologia de ponta, levara mais de trinta anos para despedir-se do Sol. No entanto, os sinais continuavam a ser enviados através do espaço, mesmo com leves distorções. Foi durante este período que fez uma descoberta intrigante.

O piloto automático desacelerou a pequena nave, iniciando diretivas adormecidas. Pequena somente para os padrões astronáuticos, pois seu tamanho equivalia a um antigo ônibus espacial. O laboratório de pesquisas entrou em ação. O sistema de lentes fotográficas, avançado na época em que foi projetado, enviou uma foto nítida da superfície daquele corpo celeste.

Exibia uma cordilheira altíssima, semelhante a um vulcão tibetano. A diferença? Havia um fundo branco onde deveria estar a cratera. Poderia ser uma falha na transmissão. Desacoplou um de seus drones e o lançou na formação planetária.

A gravidade se encarregou do restante. O objeto esférico desviou dos pedregulhos maiores – anéis ao redor do planetoide – acionou o sistema de frenagem e deixou-se cair. Atravessou direto pela fraca atmosfera. Caiu como uma pedra atirada em um lago. De platina.

A onda de choque se espalhou. Se um dia aquilo se transformasse em um planeta, já continha sua primeira cratera não natural. A esfera se abriu. Um robozinho curioso, cheio de rodas dentadas, passou a estudar o ambiente. Seus oito olhos, atentos a tudo, registravam e arquivavam o cenário em formato panorâmico.

Sem atmosfera visível, o horizonte parecia cortado em dois por uma linha tênue. Em cima, um fundo escuro cheio de pontos brilhantes. Embaixo, o solo cinza, quase azul. Ou seria o contrário? Levaria horas para sair de sua própria cratera. Enquanto isso, lá em cima (ou embaixo), a sonda registrava mais uma perturbação. As ondas de rádio, livres, começavam a interferir nos instrumentos.

Finalmente, após seis horas, Spider-Sigma conseguiu sair, danificando apenas um de seus preciosos meios de tração. Aquele conjunto valia milhões, senão bilhões. Apontou as lentes para a cordilheira. O reflexo luminoso o fez parar. Analisou as possibilidades, probabilidades e teorias durante trinta minutos. Prosseguiu.

Andou por dez quilômetros sendo guiado por aquele estranho fenômeno não atmosférico. Ao se aproximar da montanha, calculou. Voar com a esmagadora gravidade que agia sobre seu corpo era inviável. Mediu a distância duas vezes e lançou o arpão. Não prendeu na primeira vez. Lançou-o novamente, no mesmo lugar. Conferiu a resistência. Ligar a tração nas dez rodas exigia precisão.

A sonda Sigma teve o cuidado de verificar a próxima emissão de tempestade radiofônica. Se fosse humana, estaria em pânico. Um nível monstruoso de radiação seria expelido em poucas horas – o que poderia desligar todo o sistema, incluindo os de emergência.

Enviou os dados à Spider-Sigma. Sozinho, curioso e com uma força equivalente a duas toneladas, chegou ao topo da montanha com certa facilidade. Havia escolhido o lado que continha escarpas regulares, sem pontas. Baixou os sensores, ativou o amortecedor e travou as rodas. Deslocou um dos olhos, colocando-o acima dos demais. Registrou o interior do vulcão.

Algas azuis. Bioluminescentes.

Recobriam por completo o interior da montanha. Duas alternativas surgiram em seu diminuto cérebro: o planetoide continha traços de oxigênio, sendo possível realizar a engenharia química. Ou, menos provável, uma nova forma de vida baseada em minerais desenvolvera-se na periferia do universo.

De qualquer forma, aquilo era uma forma de vida alienígena – para a sonda. Pois, para as algas, alienígena era o autômato que agora as estudava com afinco. A sonda-mãe recebeu as fotos…

Um brilho intenso em cima de uma torre gigantesca, um farol das estrelas!

O alarme soou. Tarde demais. Como as últimas palavras de um ser agonizante, Sigma enviou o as informações coletadas até aquele momento. Pela última vez. Deu um adeus mecânico à sua contraparte e aguardou.

Lá embaixo, como que prevendo o inevitável, mais uma vez a natureza surpreendeu. As algas levantaram voo, como borboletas do tamanho de um felino terrestre. Os olhos mecânicos registraram tudo, até que…

Luz. Silêncio.

Íris.

(…)

Séculos depois, uma mensagem chegava aos confins do universo, à Terra. As ondas voltavam para casa e traziam consigo notícias de um novo mundo – um lugar onde agora estava a mais brilhante fonte radiofônica de luz extra solar existente no céu. Uma supernova. E com ela, uma questão.

A quem guiava o Farol de Cassiopeia?

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