Inércia [14.10.14]

explosao_supernovaNa esfera exterior do universo conhecido existia um exótico, improvável e fascinante mundo, onde algumas leis naturais da física não se aplicavam. Seus habitantes nasciam, desenvolviam consciência e desapareciam na velocidade da luz. Nunca houve registro cósmico de suas atividades individuais, pois eram praticamente invisíveis em seus três segundos de existência.

O que a humanidade seria capaz de fazer em três segundos? Involuntariamente, mover milhares de sinapses e circuitos neurônicos à ação, reconhecer sinais incompreensíveis de compatibilidade e dar prosseguimento à espécie… Apaixonar-se. Poderiam, aqueles seres, compreender o que isso significava?

Não. Mas entendiam plenamente o sentido de coletividade. Cada nascituro interligava-se imediatamente ao mais próximo, compartilhando informações e experiências sensoriais enquanto sua vida durasse. Como durante aqueles três segundos surgiam centenas de outros, o resultado era um imenso emaranhado de informações mutáveis. Uma rede, um cérebro, desenvolvendo-se velozmente através das eras.

A diferença fundamental entre o ciclo de existência e término atrasava, de forma relativa, o início e o fim do aglomerado. Foi depois de incontáveis milênios que a massa gelatinosa, semelhante a um cometa, expressou o conceito que alteraria para sempre aquelas formas de vida.

Eu.

Mas quem seria o “eu”? Havia milhões de “nós” até aquele momento, nascendo e morrendo, continuamente. Este curtíssimo devaneio matou mil delas em dois segundos. No entanto, aquela informação era importante demais para ser ignorada e, mesmo que tentasse, não conseguiria livrar-se dela – o conhecimento compartilhado se acumulava, sendo transmitido a cada nova espécie.

Por causa do “eu”, a coletividade entrou em um caminho sem volta. O “nós” já não era tão importante. Obter consciência de si próprio trouxe grandes questionamentos, complexos demais para serem respondidos em apenas três segundos. Precisava desacelerar. E se isso matasse a coletividade?

O “eu” novamente se sobrepôs ao “nós”. Diminuir o metabolismo resultaria em uma reação em cadeia, mas seus frágeis neurônios não ponderaram as consequências. Pensar sozinho era difícil. Por fim, decidiu.

Três…

Enviou a ordem ao restante.

Dois…

Pensamentos confusos e conflitantes dividiram a colônia.

Um…

Na esfera exterior do universo conhecido, um mundo exótico, improvável e fascinante parou de girar, de repente, como se alguém colocasse uma trave no aro de uma bicicleta em movimento.

Milhões de pequeninas algas espalharam-se pela imensidão do cosmos. Uma supernova viva.

Pela primeira vez, em suas curtas vidas, experimentaram a força que viriam a conhecer somente anos-luz mais tarde, quando o sistema solar estivesse à vista: inércia.

Algumas sondas sobreviveriam à viagem, pois as dimensões do espaço-tempo seriam simples, lentas e “quadradas”. Chegariam ao terceiro planeta do sistema solar, descendo naquele mundo verde, azul e marrom, habitado por estranhas criaturas gigantes e monstros marinhos, sob a forma de “nós” – um colossal asteroide que traria a morte como presente e uma nova Era do Gelo.

“Eles”. O primeiro contato. No entanto, cedo demais.

Zero.

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