Dimensões [31.10.14]

– Realmente não consigo entender o mundo em que vivemos.

Tirou o outro de seu sono profundo.

– O que foi agora? Acordou sentimental?
– Não me lembro de termos essa árvore, e tão perto de nossa casa! Parece que brotou do nada.
– Você está sonhando! Ela sempre… É verdade. Esta aqui é nova.

Observaram-na durante vários minutos, com expressão de dúvida.

– Ok. Vou mergulhar em busca de comida. Você vem?
– Só mais um pouquinho.

O casal mergulhou nas profundezas abissais. Estavam acostumados a sobreviver de modo extremo. Não sabiam até quando obteriam seu sustento, pois os dias atuais eram difíceis. Retiravam o que podiam do fundo das águas, aproveitando todas as oportunidades.

Assim que voltaram à superfície, pareceu-lhes que sua casa havia sido retirada do lugar.

– Têm acontecido coisas estranhas ultimamente.
– Eu não disse? Será obra DELE?
– De quem?
– Você sabe. “ELE”. Ou “ELA”. Não sei.
– Lá vem você com isso.
– Ora, não acha que alguém cuida de nós, lá de cima?
– O que vejo lá em cima é apenas o Sol amarelo e…

Já não parecia da mesma cor. O tom laranja foi cedendo lugar ao vermelho carmesim, bastante sombrio.

– Mas o que…
– É o fim dos tempos!
– Acalme-se! Isso não está certo. Se fosse alucinação apenas um de nós estaria vendo. Vamos pra casa, depressa!

A gravidade perdera toda a força. Observaram, assustados e encolhidos em um canto, as águas trocarem de posição. A terra tremeu em seguida.

– Se nossos pais estivessem vivos, com certeza teriam uma explicação!
– Não sei o que vai acontecer daqui pra frente, mas quero que saiba…

Naquele instante o “céu” se abriu, revelando uma projeção. A mão suave, delicada e gentil, apesar de colossal, envolveu seus corpos. Encontrar-se-iam finalmente com a força que os mantinha vivos. Neste caso, literalmente, ELA. Angelical.

A luz era tão forte que perderam os sentidos durante vários minutos.

Acordaram em um lugar diferente, espaçoso, tranquilo e por incontáveis eras, sublime. Inúmeras casas, comida abundante e plantações a perder de vista completavam a visão. E o mais surpreendente, havia outros.

– É… Você tinha razão. Estamos no paraíso!

***

Ária finalmente desligou o alarme. As luzes vermelhas da estação apagaram-se e o tom amarelo pálido voltou com força total. Por sorte, conseguira conter a tempo os buracos criados pelos micrometeoritos fugitivos.

Reiniciou o sistema e acomodou seus amigos em um lugar mais seguro. O gerador de gravidade voltou a funcionar. Quem disse que ser astronauta era fácil? Mas a visão compensava qualquer esforço.

Suspirou. De volta à normalidade.

Exceto, é claro, para o pequeno casal de peixinhos que sobrevivera ao vácuo, durante alguns segundos. Corriam de um lado ao outro com seus novos amigos, felizes e bem alimentados, no imenso aquário de testes.

(“Para os peixinhos do aquário, quem troca a água é Deus.” – Mário Quintana).

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