אוהב

I – O início

Entre espessas nuvens de formação atmosférica, lava vulcânica e tempestades elétricas violentas, havia uma montanha.

Tão alta que era impossível enxergar seu topo. De seu leito principal escorria um rio de plasma, intocável. Minérios desconhecidos percorriam a planície irregular, onde relâmpagos indomáveis insistiam numa cavalgada sem fim.

Foi nas terras distantes, recobertas de magma resfriado e gases inóspitos, que o objeto de estudo floresceu. Seus frágeis tentáculos rosados balançavam sobre as delicadas pétalas cor de vinho. Era nítido o contraste entre as forças que atuavam ao longe e seu local de origem.

A flor, dotada de um senso de inteligência além da compreensão, aguardava ansiosamente que um dos raios a atingisse, pois, sem a energia necessária, jamais conseguiria alimentar-se. O processo de crescimento era doloroso, caótico e circunstancial. Mas imperativo.

A resposta, inesperada, surgiu do alto da montanha em questão. Uma fisgada em seus filamentos externos fê-la girar. Aguardou. Não houve diálogo. Um clarão azul a interrompeu. Observou, atentamente, a descarga iônica desabar sobre o solo… Tão forte quanto às tempestades sazonais.

O processo de aceleração celular teve início. Em poucos dias, haveria outro caule. Procurou o benfeitor em todos os lugares, por meio de sua estranha ligação terrestre, mas não o encontrou. Teve de se esforçar para alcançar distâncias maiores. O ponto longínquo, sombrio, acima das nuvens, parecia um bom lugar para começar.

II – O Desenvolvimento

O gigante rochoso, de vinte quilômetros de altura, não sabia desde quando sua consciência surgira. No entanto, preferia não tê-la. Ainda sentia as vibrações internas decorrentes da formação geológica.

Não podia se mover. O horizonte púrpura era tudo o que tinha (mal sabia ele que lá fora, nos anéis externos, um sistema solar em formação dava seus primeiros passos). O planeta ao qual estava preso era o primeiro a demonstrar sinais de vida inteligente.

Após incontáveis ciclos, o que incluía tremores e expansão de massa, percebeu o surgimento de algo estranho e incomum nas bordas do oceano de lava. Não podia enxergar uma coisa tão microscópica, teve de esforçar-se para senti-la. Esbarrou numa forma de vida delicada, frágil e carente de nutrientes. Aquilo era novidade. O que poderia fazer para alcançá-la?

Acostumado aos fluxos piroclásticos, mesmo que isso o destruísse por dentro, emanou quantidade suficiente para que gerasse nuvens carregadas. Não demorou muito para que seu plano entrasse em ação. O relâmpago deixou a morada dos céus e desceu à terra em uma velocidade incrível, criando um estardalhaço na planície costeira.

A criatura percebeu…

III – O Enlace

Havia algo acima das nuvens. Uma forma de vida primitiva, segundo seus padrões. Responsável, indiretamente, pela sua sobrevivência. Como poderia agradecer-lhe, sendo que precisaria daquele auxílio mais vezes, a fim de evoluir? O único modo de demonstrar apreço por seu esforço era espalhar-se pela superfície, até que, algum dia, alcançasse o topo.

O gigante rochoso percebeu seu lento desabrochar. Já não era apenas um ser. A conexão ficava mais forte a cada novo florescimento. Notou que o solo rochoso tornava-se maleável com o tempo.

E foi isso o que aconteceu nos milhares de anos à frente…

… A troca de materiais e informação tornou-se constante, a ponto de estabelecerem um contato mais profundo. Inúmeras subespécies já haviam preenchido sua extensão, o que tornava mais fácil iniciar um diálogo entre a consciência coletiva e seu mentor. O objetivo principal estava prestes a se cumprir – os últimos brotos já floresciam no topo.

Foi nesse período que o gigante passou a sentir-se fraco, com pulsos ocasionais a cada cem anos. Tornar-se-ia inativo em pouco tempo. Esperava que sua companheira conseguisse atravessar as irregularidades no ano seguinte, antes que hibernasse para sempre. A terra ao redor já apresentava uma variedade espantosa de flora nativa. O que mais poderia querer? A missão que havia escolhido (ou dada por alguma força desconhecida) chegava ao fim.

O som harmônico espalhava-se pelas colinas, num esforço coletivo para o envio de uma última mensagem. Enquanto isso, o gigante lutava contra a sonolência natural. Não aguentaria esperar mais. Como resumir todos aqueles anos juntos em apenas uma sentença? O tapete de flores envolvia seu “corpo” em uma camada colorida, aconchegante e termodinâmica – o que seria essencial num futuro próximo.

Tornou-se inativo assim que ouviu, finalmente, a voz de sua protegida.

Foi apenas uma palavra, mas que o recompensou por todos aqueles milênios de cuidado e compreensão…

IV – O Fim

Milhões de anos depois, um módulo espacial terrestre descia sobre a superfície rochosa, pousando sobre um impressionante campo florido, sonoro, harmônico. O grande Sol alaranjado derramava seus nutrientes sobre os campos cheios de vida. As ranhuras, na superfície da maior montanha já vista pelo homem, possuíam um significado especial.

Que linguagem era aquela? Pareciam escritas à mão, num dos primeiros alfabetos conhecidos. Um silêncio contemplativo inundou a ponte de comando… Haviam encontrado o “Paraíso Perdido” de John Milton!

…E a palavra (capaz de criar, definir e guiar toda uma vida) perdeu-se para sempre nas correntes do tempo, devido à interferência incomum. O santuário intocado estava oficialmente sob novos cuidados.

Anúncios

Agradeço o comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s