O Clube dos Cinco

II – Paradigmas

Sexta-feira, nove da manhã. Smiljan, Croácia…

…E aqui estamos. Ainda chove lá fora. Insisto em remoer os últimos eventos.

“Estamos no limiar de um novo tempo”, é o que dizem os jornais sobre a mesa. Jamais entenderei como funcionam as fantasias daquele homem, mas o que presenciei, embora não possa revelar detalhes, mudará para sempre nossa sociedade. Isso é ruim? Não sei dizer.

Pelo menos Irene ainda me faz companhia. Gosto dela. E ela sabe disso. No entanto, eu, Charles Mozart, agraciado com a descoberta do segredo mais obscuro de nosso tempo, estou bêbado… E falo, neste exato momento, com você, meu amigo imaginário. Não houve solução, como já lhe disse. Esteja ciente!

Não importa. Vou continuar escrevendo. Afinal, a moral e os bons costumes sofrerão mudanças irremediáveis.

E pensar que tudo começou com uma simples investigação… Já havia lhe mostrado minhas anotações?

III – O caso Anna Franz

Segunda-feira, oito da manhã. Quatro dias atrás. Mozart & Friedrich Co. Smiljan, Croácia…

A luz solar incidia sobre as ranhuras prateadas do isqueiro importado, revelando detalhes escondidos na superfície do estimado presente, cuja função era me servir de peso para papel. Naquela manhã em particular, havia espalhado diversos documentos, aparentemente inúteis, sobre a mesa. Se me livrasse da papelada sem atenção, poderia comprometer casos menores.

Minha secretária bateu à porta. Um novo cliente aguardava. Agradeci e pedi que o deixasse entrar. Não costumava julgar as pessoas antes de analisar os fatos, mas, por influência de escritores contemporâneos, o fiz. O homem tinha porte atlético, boa postura, chapéu de marca conhecida e chamativos olhos verdes.

Esboçou um sorriso cortês assim que entregou o casaco à Irene. Ela retribuiu-lhe com um olhar tímido ao avistar a aliança de compromisso em sua mão esquerda. Mexeu nos cabelos cacheados e fechou a porta. Intuitiva, como sempre. Suas inúmeras qualidades tornavam-na indispensável.

Estendi a mão esquerda e aguardei. Como esperado, houve certo receio de sua parte. Era destro, ou escondia algum remorso inconsciente. Ofereci-lhe um chá e o direcionei à poltrona em frente à mesa de mogno. Metade das histórias ouvidas eram basicamente abstrações. Mas, na parte que realmente interessava, percebi um caso interessante, um desvio de comportamento incomum. Dizia que sua futura esposa, Anna Franz, costumava sumir nos finais de tarde e voltar logo à noitinha, com sorrisos disfarçados. Precisava saber se não havia nada de controverso em seus passeios vespertinos, pois se casariam em breve.

Na verdade, com experiência de mais de vinte anos no ramo, suspeitava que ele, debaixo da camada de sobriedade, gostasse desse fato. Seu sorriso amarelo denunciava leve satisfação. Irene também percebeu que havia algo ali e como ela não costumava se enganar, aceitei o caso. Talvez, mais pela curiosidade do que pelo dinheiro.

IV – Boatos

Terça-feira, dez da manhã. Três dias atrás. Praça central de Smiljan, Croácia…

O céu estava limpo, um estranho dia frio, sem neve. Meu primeiro passo foi observar. Sentei-me no banco mais próximo às mesas de xadrez, onde homens importantes e senhores de idade discutiam frivolidades como marcas de bebida, táticas no carteado e intermináveis regras de críquete. Abri o jornal, de forma despretensiosa. Notícias sobre a feira de ciências estampavam a capa.

Depois de alguns minutos de puro tédio, ouvi algo realmente interessante. Um dos mais jovens mencionou que sua esposa apresentava manias estranhas, como sair de casa à tarde e voltar somente ao crepúsculo. O que veio a seguir foi uma típica piadinha sobre o que iria perder senão lhe desse mais espaço. Isso não me interessava, mas a saída vespertina se assemelhava ao caso em questão.

Fechei o jornal. Cumprimentei a todos com apenas um aceno e entrei na jogada. Depois de perder alguns dólares, de forma proposital, indaguei sobre o destino das respectivas madames.

“Vão assistir as peripécias daquele inventor metido a mágico”, respondeu o mais novo. Já tinha visto os panfletos sobre experiências científicas expostas ao público, bem como a aparente teatralidade com que aquele homem divulgava suas descobertas. Mas o motivo permanecia obscuro. Por que as mulheres teriam mais interesse na ciência do que os homens? Teria de assistir ao evento de título curioso.

V – Chuva de Raios

Terça-feira, três da tarde. Galpão de experiências de Nikolai Tesla…

Pessoas bem vestidas e maquinário fantástico passavam a impressão de uma galeria futurista. Presenciei uma sucessão de itens bizarros e um estudo completo sobre o que ele chamava de “eletricidade”. Fiquei impressionado com algumas coisas, mas duvidei de sua relevância. Afinal, para quê serviria um sapo dissecado que mexia as pernas depois de morto?

Ao voltar minha atenção para o corredor, avistei Anna Franz contemplando dezenas de aparelhos rústicos, sem demonstrar curiosidade. Deduzi que ela já estivera ali outras vezes. Discretamente, segui a moça distraída com os próprios pensamentos. O “circo científico” ocupava um espaço considerável.

Passaram-se trinta minutos quando, sem aviso, o famoso e excêntrico homem conduziu os convidados ao interior do galpão, onde havia uma enorme esfera cheia de anéis, coberta por lençóis de tecido fino. Ao retirar a proteção, o monstro tomou forma: engrenagens, fios, conectores e antenas formavam uma escultura gigante em homenagem a um deus antigo. Anna Franz, a uma distância segura, parecia prever o que viria a seguir.

Assim que o gênio impetuoso ligou a máquina, e se sentou calmamente em sua cadeira, pude sentir a comoção geral… E calafrios. As moedas que carregava no bolso vibraram. Retirei o relógio do colete e observei feixes azulados percorrendo os ponteiros. Quando levantei a cabeça e tentei me recompor, percebi o motivo de tantos murmúrios acalorados.

A esfera emitia raios de um azul intenso, enigmático, profano e sedutor. O futuro despia-se à minha frente, sem temer os olhos incrédulos que o observavam pela primeira vez. Algumas pessoas corriam em desespero, enquanto o visionário lia, tranquilamente, um livro, ao lado de sua maior criação. Teria aberto as portas do submundo?

Em meio ao estado catatônico geral, pude perceber que Anna Franz e outras mulheres admiravam, de forma serena, a máquina dos pesadelos. Quando, finalmente, desligaram a chave-mestra, recuperei os sentidos. Meus cabelos ainda estalavam de forma assustadora.

Os que não haviam fugido parabenizaram o inventor pela grandiosa descoberta, mesmo que não a compreendessem por inteiro. Tive de sentar um pouco até conseguir assimilar tudo. Nesse meio tempo notei que, homens distintos, acompanhados por várias damas da alta sociedade, assinavam uma espécie de contrato. Que experiências nefastas estariam planejando? Anna foi a última a assinar.

Ajeitei meu cabelo, conferi se o relógio ainda funcionava e saí. Estranhamente, sentia-me bem disposto, apesar de trêmulo. Não havia nada demais no comportamento das mulheres, pelo menos naquele dia. O que mais me intrigava era o contrato. Sigilo, talvez? A resposta não demorou a aparecer, sob a forma de uma bela jovem de olhos azuis e vestimenta discreta. Anna Franz entregou-me o contrato de confidencialidade e aguardou minha assinatura, em silêncio.

Não cheguei a ler as entrelinhas. Foi com espanto que a ouvi sussurrar, de forma quase inaudível, que precisava de meus serviços…

VI – O caso Peter Bram

Quarta-feira, oito da manhã. Dois dias atrás. Mozart & Friedrich Co. Smiljan, Croácia…

Irene recebeu a convidada de modo costumeiro, divagando sobre as artes abstratas que compunham a decoração, como se a conhecesse há algum tempo.

Ao entrar no escritório, Anna foi direto ao ponto, ao contrário dos demais clientes. Suspeitava que seu noivo a estivesse traindo. Aquela informação me colocava em uma situação extremamente delicada. Disse que, certo dia, sua melhor amiga havia faltado à terapia e avistado Peter Bram saindo de lugares duvidosos – foi então que resolvi não revelar que também estava trabalhando para seu futuro marido.

Apesar do treinamento psicológico, precisei me esforçar para focar os pensamentos no que realmente era importante. A palavra “terapia” ressoava de forma alternada. Quando a indaguei sobre o assunto, seu comportamento mudou. O porte altivo e confiante deu lugar à vergonha e timidez. Calou-se.

Não entrei em detalhes. Dei-lhe a certeza de que a empresa mantinha todas as informações sob total sigilo. Afinal, essa era a essência de meu trabalho. Antes de partir, sussurrou uma palavra, comportamento recorrente em sua personalidade, e fechou a porta, acenando para Irene.

VII – O caso Tesla

Naquela mesma manhã, após descer ao pátio e reorganizar as ideias, avistei uma conhecida de Anna – Clara. Tranquila e contente apreciava o belo conjunto de árvores centenárias entre os prédios. Caminhava por ali todas as manhãs. Parecia bem mais serena do que o de costume.

As horas foram passando, e com elas, casais, crianças e autoridades. As mulheres cochichavam segredos. Os homens, sérios, pareciam não compreender nada, o que era algo bem comum.

Clara passou na minha frente. Precisava de respostas, por isso improvisei. Segui a moça discretamente, um amadorismo necessário. Ainda fazia muito frio, mas ela vestia apenas um casaco simples. Cumprimentei alguns amigos pelo caminho, pois, devido ao sigilo, acreditavam serem os únicos a me conhecer.

Pensei ter visto Peter Bram à porta de um bar. Sua mão esquerda tremia. Era ele mesmo. Pelo visto, sentia os efeitos de quem tem problemas com álcool. Voltaria a esse caso depois. Continuei, antes que perdesse o rastro de minha suspeita.

Não demorou muito para chegar à rua que levava ao galpão de Tesla. O local me causava arrepios, ainda mais depois da última experiência. Ela entrou por uma porta desconhecida, aos fundos, provavelmente reservada apenas a pessoas importantes. Ao me aproximar, percebi que duas senhoras conferiam identidades. Um clube secreto, talvez.

O terraço do prédio vizinho não era nem um pouco convidativo, mas de lá obteria o melhor ângulo do quadro geral, mesmo que congelasse no processo. Aguardei até que a noitinha desse o ar da graça e subi pelas escadas de emergência. A manutenção das estruturas era bastante precária. Através dos enormes vãos do telhado pude entrever o que acontecia no interior do tal clube. Esperava ver Anna Franz por lá, mas quando Irene apareceu, fiquei confuso.

O gênio promissor, acompanhado por apenas dois ajudantes (um deles com aparência de médico), trouxe uma espécie de cama sobre rodas. Logo havia seis delas, dispostas em círculo. Presenciei, horrorizado, seis senhoritas amarradas pelos braços, um emaranhado de fios saindo dos artefatos e chaves ligadas diretamente a um diapasão gigante. Vestiam roupas simples, típicas de hospitais.

Pensei em pedir ajuda, mas a curiosidade mórbida e a adrenalina invadiram-me, travando qualquer movimento. Diante de olhares curiosos, a máquina foi ligada. Emitia ondas semelhantes à esfera anterior, mas em escala muito menor. Os corpos tremiam. Temi por Irene.

No entanto, após breve momento aterrorizante, eternizado em meu subconsciente, notei seis expressões confusas, com inigualáveis e incompreensíveis sensações de satisfação. Mais ainda, de completo êxtase… O que era aquilo, afinal? Anna era a próxima. Caminhou em direção à aparelhagem, devagar, envergonhada. Lembrei-me da expressão utilizada por ela: “terapia”.

Desviei o olhar e sentei no terraço frio e úmido, escorando as costas na proteção de tijolos. O principal motivo dos comportamentos estranhos daquela semana estava agora a doze metros abaixo de mim. O contrato de confidencialidade servia para isso.

Precisava juntar as peças.

I – Paradigmas

Sexta-feira, oito da manhã. Smiljan, Croácia…

Como poderia perguntar à Irene o que ela fazia lá, sem informar que a estava vigiando? Ela se submeteria a um vergonhoso interrogatório pessoal? E o contrato de confidencialidade? Se acusasse o gênio indomável sem provas, perderia a agência em virtude de calúnia. Também não poderia denunciar o clube secreto sob pena de desmoralizar a cidade inteira, destruindo casamentos no processo. O que dizer de Peter Bram? Como informar-lhe o que Anna fazia, sem comprometer sua integridade? E como dizer a ela que seu noivo era alcoólatra, sem revelar onde o encontrei?

O sussurro de Anna finalmente fazia sentido… “Eletrochoque”.

Um dia, ainda haveria estudos sobre aquela terapia incomum, quase imoral. Desconfiava que, mentes brilhantes, com o tempo, viessem a criar aparelhos de mesma intensidade, portáteis, repletos de outras funcionalidades.

Não poderia resolver meus três casos mais promissores. E ainda havia Irene. O que faria a seguir? Cinco segredos… O clube de dissimulação mútua estava oficialmente aberto. A garrafa incolor sobre os livros superiores, de aspecto rude e barato, presente de um tio distante, clamava para ser aberta…

***

(Nota: texto enviado para uma antologia com a temática Teslapunk, com limite de 13.000 caracteres, não escolhido. Pretendo um dia voltar a esse universo).

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