A Máquina do Juízo Final

Astrid Astra Celeste, a mais nobre sacerdotisa do Alto Conselho de Júpiter, enfrentava um dilema: a Singularidade, de dimensão astronômica quase infinita, se aproximava – fenômeno que traria o fim àquela raça guerreira, exploradora e persistente, espalhada pelo sistema solar. Era imperativo decidir se devia ou não utilizar a Máquina do Juízo Final, artefato concluído a tempo pelos mais destacados tecnomagos, considerado sagrado pela colônia magistral do satélite Europa.

Aquele exótico item possuía a estranha habilidade de distorcer qualquer evento passado, ao custo da destruição do próprio tempo presente, oferecendo um risco que deveria ser calculado pelos magistrados. Assim, Terra, Marte, Europa, Kepler e Gliese permaneciam conectados ao templo onde Astrid discursava, lamentando o curso de suas ações vindouras. Suas palavras emocionadas chegavam ao ápice na planície rochosa de Ganimedes.

— Todos sabem que, nos tempos antigos, um ataque exterior devastou por completo nossa terra-mãe, deixando um rastro de destruição e corações partidos. No entanto, aquele fatídico evento serviu para nos reerguemos e conquistarmos o espaço de uma vez por todas. Expulsamos os invasores, valendo-se de sua própria tecnologia. Aprendemos a conviver com a energia extraída dos próprios minérios e a conquistar, com sucesso, viagens intergalácticas…

Todos aplaudiram, inflamados pela aura que seus trajes reais esvoaçantes provocavam. Astrid era discreta, mas no fundo gostava daquela bajulação. Afinal, a equipe responsável pelo registro exigia que seu desempenho fosse único, uma lembrança para as gerações futuras, caso viessem a existir. Cruzando as mãos sobre o quadril, continuou.

— Infelizmente, conforme previsto pelo Oráculo de Titã, a Singularidade irá nos atingir em breve. Mas não se preocupem! Todo o conhecimento acumulado durante estas eras será arquivado no Dodecaedro. Queira Júpiter que o objeto seja encontrado por outra forma de vida senciente – eles se encarregarão de dar prosseguimento aos nossos sonhos. – suspirou, transmitindo mais emoção.

Em seguida estendeu os braços ao horizonte, com vívido entusiasmo.

— A Máquina do Juízo Final está pronta, meus irmãos!

Houve um grande silêncio.

— Mas é uma decisão que não poderei tomar sozinha!

As faces se voltaram para a etherosfera, sabendo que, devido àquela afirmação, teriam de votar em algum momento, de forma consciente, pelo futuro da humanidade. Astrid Astra Celeste, no topo de uma tribuna de mármore dourado, preparou-se. O curso da história seria definido por todos.

— Queridos súditos! É chegada a hora de ligarmos a Máquina do Juízo Final! Portanto, lhes faço agora a pergunta derradeira.

A ansiedade tomou conta das colônias terrestres.

— Devemos permitir que bilhões de pessoas morram no passado para que nossa sociedade se desenvolva até o ponto em que chegamos hoje, sob o risco de sermos exterminados pela Singularidade? Ou devemos interferir naquela batalha derradeira, deixando que o inimigo vença, atrasando em milhões de anos nosso desenvolvimento, sabendo que talvez possamos ser apagados da história?

A confusão mental era evidente. Não parecia haver qualquer opção favorável. Astrid encerrou sua participação naquele momento, simplificando a pergunta ao máximo. Uma decisão que alteraria o destino de uma raça.

— Salvar o passado e destruir o futuro? Ou destruir o passado e salvar o futuro? Vocês têm uma semana para decidir.

Ajeitou a manta sobre os ombros, empunhou o cetro de diamante e desceu a imponente escadaria do templo Galileu, evitando olhar diretamente para a etherosfera. Sua expressão melancólica denunciaria a meia verdade… Desapareceriam de qualquer forma.

O Dodecaedro foi lançado no mesmo dia, e com ele, os sonhos e esperanças de uma humanidade que jamais seria a mesma…

Além do Cinturão de Asteroides, lar de imensos pedregulhos e rochas de gelo, a mais ambiciosa estação espacial já construída pelo homem permanecia constante. Júpiter, sendo o gigante do sistema solar e fonte inesgotável de hidrogênio e ondas de rádio, ditava o suntuoso desenho das estruturas, contribuindo para que seus habitantes assumissem formas, costumes e vestimentas de um panteão singular. O maior planeta do sistema terrestre governava sobre todos. E agora, estava prestes a perecer.

A decisão havia sido tomada.

***

Num passado distante, a armada inimiga, destruída por um artefato desconhecido de origens atemporais, tingiria os céus de vermelho, derrubando destroços por todo o planeta – os quais seriam bem utilizados nos anos à frente. A história diria que um contra-ataque terrestre bem sucedido teria sido a chave para a vitória. E todos acreditariam, incluindo as futuras gerações. Mas, assim como um arranhão se cura com o tempo, as linhas temporais se encarregariam de estancar o corte, nem que para isso levassem milhões de anos.

***

Astrid Astra Celeste, a última nobre sacerdotisa do Alto Conselho de Júpiter, chorou pelos filhos do Sol… A Singularidade, filha do tempo, avançava com apetite voraz.

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