Pêndulo

O relógio de bolso, deixado como herança por seu avô, parado a mais de um século, pedia conserto. Com cautela abriu o invólucro de vidro e apreciou por um instante os cristais de quartzo. Delicadamente assentou os dedos sobre a engrenagem de corda e a girou. As luzes da exótica relojoaria antiga se apagaram.

Dirigiu-se à porta. Abriu a pequena janela. Não havia luz no quarteirão inteiro, apenas um silêncio perturbador. Olhou para cima. Os pontos brancos, distribuídos de forma homogênea na manta noturna, causavam admiração. Há quanto tempo não via um céu tão estrelado?

Saiu. Não havia ninguém. Improvisou um banco de tijolos e cruzou os braços. Lembrou-se das aulas de seu falecido avô. O “velho” tinha gosto pelas engrenagens que moviam o mundo, uma definição curiosa, mas cheia de sentido. Se o Sol era o motor, a Terra era o pêndulo. Contemplou o céu mais uma vez. Onde ficava o Cruzeiro do Sul? Órion era fácil de encontrar. No entanto, aquelas constelações pareciam diferentes.

Coçou a cabeça. Entrou. Todos os relógios, incluindo os mais exóticos, estavam parados. Olhou para o pulso. Não querendo acreditar na hipótese fantasiosa que se formulava, voltou ao objeto deixado sobre o balcão.

Assim que o pino de corda foi retirado, todas as luzes se acenderam. Seu relógio voltou a funcionar. Os sussurros da noite e a aglomeração de pessoas o deixaram aliviado. “Engrenagens que movem o mundo”… Deu uma gargalhada. Estava trabalhando demais. Recolheu o casaco e trancou a relojoaria. Seu avô ia gostar daquela história…

Ou não, caso olhasse para cima e percebesse que, de repente, as estrelas conhecidas haviam desaparecido.

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