O estranho caso do assassinato de Aurélio Dias

Aurélio Dias, sentado em frente à juíza do Tribunal do Tempo, aguardava o momento certo para iniciar sua defesa. O julgamento chegava ao ponto em que poderia contar a sua própria versão dos fatos. O prólogo chegava ao fim.

— Temos aqui, em nossa presença, o senhor Aurélio Dias, acusado formalmente de ter assassinado o próprio senhor Aurélio Dias, ou, como os conselheiros relutam em dizer, a si próprio. A defesa deseja se pronunciar?

Aurélio Dias, acompanhado pela esposa, réu e defensor ao mesmo tempo, iniciou o relato.

— Todos sabem que, no início do ano três mil e três, fui o primeiro ser humano a experimentar o teletransporte em escala real. Também sabem o motivo que levou o experimento a ser abandonado. Está nos registros. O problema é que não existe teletransporte sem que este produza uma cópia idêntica do objeto no outro lado. Neste caso, um ser humano. Assim descobrimos, em pouco tempo, que havia uma cópia minha no outro lado do mundo. Mas o que, realmente, havia sido enviado? Minha consciência? Como isso era possível? Então decidi encontrar meu irmão gêmeo.
— O senhor é a cópia ou o original?
— Eu sou Aurélio Dias, meritíssima. E isso é o que importa. Se me permite continuar…
— Prossiga.
— Embora pudesse encontrá-lo, devíamos permanecer dentro do complexo científico, sob quarentena, afinal, ainda não sabíamos que efeitos colaterais aquela descoberta traria.
— Como foi seu encontro consigo mesmo?
— Apavorante. Sabíamos de antemão o que o outro ia dizer. Não se tratava de telepatia, apenas linguagem corporal. Ficamos um bom tempo em silêncio, até que algo chamou nossa atenção. Fui até a janela. Ele também. Havia uma bela florista à frente do complexo, uma jovem tímida de casacos coloridos e cabelos cor de fogo, vendendo ramalhetes de uma flor natural. Exalava um perfume bastante agradável. A partir daquele evento, notamos o que nos tornava diferentes: as escolhas. Enquanto eu decidi conversar com a moça, mesmo que distante da porta, ele, mais retraído, preferiu apenas alimentar sonhos distantes.
— Como o senhor pode descrevê-lo “retraído”, se são a mesma pessoa?
— A excelentíssima começa a perceber os percalços da aplicação do teletransporte na vida real.
— Certo. Mas qual a relevância dessas informações para o júri?
— Atentem ao fato que, nos primeiros teletransportes de partículas quânticas, o objeto inicial era desintegrado para ser reconstruído no outro lado. Não foi o que aconteceu em meu caso – e aqui entraríamos em discussões intermináveis sobre ética – mas que acabou gerando um problema filosófico, encerrado de uma vez por todas o experimento.
— Filosófico?
— Passamos a gostar da mesma garota.
— Acho que entendo as implicações.
— Éramos idênticos. O que nos diferenciava? Somente as escolhas, as vias possíveis que um caminho podia tomar, agora com as probabilidades aumentadas. Se eu tomasse uma decisão errada, ele tomava uma certa. Houve muitas decisões em conjunto, até que um de nós passou a ficar frustrado.
— O que levou o senhor a assassinar Aurélio Dias.
— Eu sou Aurélio Dias, meritíssima. Estou aqui, em sua frente, respirando!
— Contenha-se! Sabe em que ano estamos?
— Três mil e trinta e três.
— Então o senhor sabe que, desde a instituição do Tribunal do Tempo, em três mil e trinta, temos autoridade para mexer no fluxo histórico caso encontremos alguma inconsistência que possa atrapalhar o contínuo. São três anos de muita pesquisa metódica.
— Vocês é que não entendem. Estão tão envolvidos com a burocracia que esqueceram o objetivo primário desta entidade.
— E o senhor sabe qual é, senhor Aurélio Dias?

Pensou bem no que diria a seguir. Respirou fundo.

— Evitar paradoxos. Vocês são, indiretamente, o resultado de minhas escolhas.
— Então, se o retirarmos da história, o Tribunal do Tempo poderá não existir? Não é muita presunção de sua parte?
— É uma possibilidade. Mas vejo que ainda não compreenderam. Vocês já fizeram isso. – Olhou em volta. Percebendo que haviam mordido a isca, continuou. — Precisavam testar sua máquina experimental e escolher alguém que não fizesse falta ao mundo. Existiam dois Aurélio Dias. Só que, ao retirarem minha contraparte da história, um registro de assassinato permaneceu no sistema; o que me trouxe aqui. Sou apenas um “bode expiatório” para sua instituição.
— Meça suas palavras arcaicas, professor! Sua afirmação fantasiosa implica que o Tribunal do Tempo é o verdadeiro responsável pelo assassinato de Aurélio Dias… O que se constitui um absurdo.
— Exatamente. Um absurdo. É o que estava tentando dizer. Quer mesmo levar adiante esse julgamento?

O tribunal entrou em recesso. Aurélio Dias sorriu. Discretamente abraçou a esposa, cujas mãos permaneciam empenhadas em ajeitar o pequeno broche florido em sua lapela. Estava visivelmente consternada. A juíza e os conselheiros voltaram minutos depois (ou horas, pois o tempo ali dentro transcorria de forma diferente).

— Muito bem. Devido à exposição dos fatos, o júri chegou à seguinte conclusão… O senhor Aurélio Dias está absolvido da acusação de assassinato do senhor Aurélio Dias, sendo considerado inocente até que se prove o contrário.

Beijou a esposa ternamente e comemorou. No entanto, a juíza ainda proferia uma última sentença.

— Porém, a culpa recai sobre o principal suspeito mais próximo da vítima. Ou seja, a florista, sua esposa aqui presente.

Aurélio Dias arregalou os olhos. Tudo não passava de um blefe calculado, pois o tribunal ainda era relativamente novo. Segurou a esposa suavemente e a encarou com olhos úmidos, demonstrando uma nítida expressão de terror. Ela se desvencilhou, devagarinho. Esfregou os braços e sorriu.

— Tudo é uma questão de escolha, não é, amor?

Definitivamente, ele era a cópia. Vivo e morto ao mesmo tempo… Schrödinger estaria orgulhoso de seu novo espécime.

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