Entrevista com o Editor

O personagem principal tecia um comentário insólito. Mas, naquele exato momento, a atenção do leitor estava focada no prólogo inicial, que encerrava, de forma abrupta, o parágrafo introdutório, recheado de vírgulas, passando à uma seção composta apenas por diálogos.

— Quero morrer.
— Como?
— Os personagens só são lembrados depois que morrem.
— Sim, eu entendi. Eu perguntei “como”.
— Ah, certo. De um jeito que não cause tanto sofrimento.
— O problema é que o mundo já está cheio de estantes com defuntos, personagens clássicos que deixaram algum legado. Qual é o seu legado?
— Fazer o leitor se indagar o que raios está acontecendo e o que tudo isso significa.
— Hum… E qual seria o título desse texto?
— “Entrevista com o Editor”.
— Não é muito original. Mas se chegamos até aqui, é porque produziu algum efeito.
— Quais formas o senhor me oferece?
— De morrer? No momento tenho três disponíveis: viagem no tempo, incêndio e abdução. Ainda há uma especial, que voltarei a abordar somente ao fim. O problema é que essa também me envolve e não sei se estou preparado para partir tão cedo.
— Ficção Científica, Cotidiano e Terror. Interessante. Poderia me dar uma amostra de cada?
— Claro. Assim que encerrarmos esse diálogo, a seção seguinte abordará o primeiro tema.
— Ok.

Era um homem solitário. Construir a nova colônia penal de Marte não era uma tarefa fácil. Queria voltar à Terra. Mas o que podia fazer enquanto estivesse pagando pelos seus pecados? A redoma reluziu. O exótico pôr do Sol anil trouxe consigo uma ideia. Se conseguisse entrar clandestinamente em um cargueiro, poderia deixar aquela região inóspita. Permaneceu absorto em divagações. Já estava há tanto tempo aguardando uma oportunidade, que não percebeu a chegada de um transporte aerodinâmico, bem à sua frente. O retângulo irregular avaliou sua íris. A porta desceu, com toda a gravidade a que tinha direito, revelando seu tão aguardado anfitrião: ele mesmo. A surpresa inevitável foi quebrada por sua própria explicação. Precisou valer-se de “métodos não convencionais” para se apossar da máquina e resgatar a si mesmo. Passaram-se eternos segundos enquanto suas mentes se ajustavam. Só então entenderam que faziam parte de algo maior: um paradoxo estava em andamento. O motivo de ter sido enviado à colônia penal era exatamente o método utilizado. E agora? Como resolveriam aquele dilema? Então, como se a história estivesse chegando ao fim, tiveram uma ideia genial. Bastava voltar à cena do crime, encerrar a vida de sua cópia – a qual seria enviada para Marte – e permanecer livre numa linha de tempo alternativa. Mas antes que o viajante pudesse concluir aquele pensamento, um tiro de pistola de pressão o atingiu. O outro fora mais rápido. Entrou na máquina sem pestanejar e livrou-se da roupa de presidiário, vestindo sua contraparte. Jogou o corpo ao chão. Finalmente estava livre! E também morto… Apenas um mero detalhe.

— Então?
— Gostei, mas é um tanto confuso.
— Por que acha que o pacote “viagem no tempo” é mais caro?
— Entendi. Podemos ver a próxima?
— Assim que colocar um ponto final nessa frase.

Era a mulher da sua vida. Contrariando as expectativas de quem sempre passava os olhos sobre as revistinhas de romance, na banca da esquina, sua gentileza não se resumia a cuidar de flores, aquários ou cultivar bonsais. Segurava nas mãos um belo exemplar de uma Fender Stratocaster vermelha, igual aos seus cabelos, nitidamente empolgada pela harmonia das cordas – ser a dona de uma loja musical exigia conhecimento prévio da mercadoria. No entanto, nunca tivera coragem de se aproximar. Sempre fora pacato demais para uma alma tão agitada. Assim, sentava todos os dias na cafeteria em frente e a observava de longe… Certa vez, de forma inesperada, ela veio em sua direção, deixando as luzes de Natal acesas. O que diria? Beatles parecia um bom tópico. Suava frio. Corou. Ela retirou um cartão do bolso e sentou-se à mesa, ajeitando uma franja que teimava em cobrir seus belos olhos verdes. Ela sabia! Será que o achava um tipo esquisito? Entretanto, seus gestos em língua de sinais trouxeram uma nova luz e compreensão aos seus olhos. Trocaram apenas sorrisos. Nada mais precisava ser dito. Porém, minutos depois, um alarme ensurdecedor ecoou do interior da loja. Mas o momento era tão mágico que demorou um bom tempo para perceber que chamas vivas consumiam as relíquias de outrora. Gesticulou como um louco. Ela gargalhou. Vendo que não compreendia a gravidade da situação, deixou a mesa e correu na direção contrária. Só então ela se virou. O incêndio avançava com apetite voraz. Pediu ajuda. A cafeteria chamou os bombeiros. Infelizmente, tarde demais. Ele havia desaparecido entre a fumaça e o calor sufocante. No chão, na porta de entrada, apenas uma Fender vermelha, derretida, trazia a lembrança de um amor não correspondido, restando somente lágrimas e silêncio – seu eterno companheiro.

— Triste, não?
— Pois é. Trágica demais. Posso ver a terceira opção?
— Você é bastante exigente, hein!
— Só estou avaliando as possibilidades.
— Lá vai…

Eram criaturas de olhos opacos. Nunca puderam vislumbrar as cores da nebulosa em que viviam – nuvens que refletiam seu esplendor nas mesas de vidro. Lembrava apenas de estar dirigindo sua antiga picape pelas estradas de seu avô, quando uma forte luz o obrigou a pisar no freio. O veículo chegou a empinar, atolando em seguida. Inconformado, desceu. Após uma sucessão de trovoadas distantes, um bizarro nevoeiro se formou à sua volta. Acordou ali, deitado sobre uma mesa de vidro, com os pés e mãos fortemente amarrados. Será que já haviam feito alguma coisa? Ouviu um estalido arrepiante. As criaturas pareciam louva-deus gigantes, de formas arredondadas, sem gênero definido. Uma tela, cheia de caracteres surreais, preencheu a sala. Uma sensação incontrolável se apossou de seu corpo. Poderia ser a frequência em que se comunicavam? Sabia que, em breve, voltaria àquele sono sem sonhos, um estado de torpor infinito. No entanto, logo se tornaria um pesadelo. Percebeu o que realmente havia nas outras paredes. Espécimes, de várias regiões do cosmos, agonizavam num gigantesco quadro branco, perfurados por uma enorme tachinha. Agora compreendia o que estava acontecendo. Em pouco tempo se tornaria mais um item de coleção de alguma criança alienígena, um inseto preso ao isopor, para uma aula de astrobiologia. Era melhor que a anestesia surtisse efeito.

— A ironia é a cereja do bolo.
— Hum… Difícil decidir. Simpatizei com todas, apesar de sentir um imenso vazio após lê-las. E aquela especial, que você falou lá no início?
— Ah, estamos quase chegando nela.
— Não sei o que dizer.
— Quer um conselho? Deixe o próprio leitor decidir qual é a melhor história.
— Faz sentido. Mas e a especial?
— Chegamos a ela neste exato momento. Seremos lembrados por esse diálogo enquanto somos lidos. Mas nos esquecerão em aproximadamente seis linhas.
— Se eu for lembrado, tudo bem. Uma morte ao estilo “página em branco” parece bastante adequado ao que procuro.
— Só tem um problema.
— Qual?
— O fim repentino.
— O fim?
— O fim.

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