Francis Drake e o Farol de Cassiopeia (ou O menino que sonhou estrelas)

Francis Drake VIII, vulgo “Braço de Ferro” – pirata espacial por profissão, aristocrata por diversão – ajustava a lente angular de seu tapa-olho biônico. A nuvem brilhante, áurea, hipnótica, construída por mãos não humanas, continha um maquinário ancestral ainda ativo em seu interior. O Farol de Cassiopeia estava finalmente ao seu alcance. Repousou o braço mecânico sobre o leme e pôs-se a refletir. Há quanto tempo o lendário tesouro permanecia escondido nas entranhas da escuridão? Coçou a barba espessa. Estufou o peito e gritou.

***

— Mãe?

Abriu os olhos. O teto branco, salpicado de manchas escuras, provoca-lhe náuseas. Ergueu o braço direito e observou o fio opaco, quase marrom, saindo da finíssima agulha presa ao seu punho, terminando em uma estranha árvore cujos frutos eram invólucros transparentes. Respirou fundo. O ardume e o amargor na boca fizeram-no sentir uma ânsia incontrolável. Apertou os olhos. Era apenas um suporte. Manter a concentração com todo aquele sedativo não era fácil. Tentou virar para lado esquerdo. Foi impedido por uma forte fisgada na região torácica. Tossiu. Próximo à cama, logo ao seu lado, havia um botijão de vidro contendo um líquido de tonalidade escura. Acompanhou o trajeto do bocal até a saída. O cano longo, de aparência esquisita, fazia uma curva. A cada respiração prolongada, frágeis bolhas subiam e desciam em seu interior.

— Sim, filho. Estou aqui. – A mãe agarrou suas mãos. — Como se sente?

Levantou o cobertor. Pôde finalmente identificar a origem de tal incômodo. Abaixo do conjunto de esparadrapos bem presos ao seu peito, um tubo, exatamente igual ao que tinha visto, percorria um longo caminho até o chão. Ao testar seus movimentos, tossiu outra vez. O líquido se moveu mais rápido.

— Calma. Você tem que se mexer bem devagarzinho…

Com muito esforço empurrou o corpo para frente. Lutou para manter aquela posição, enquanto ela ajeitava o encosto da cama hospitalar. Um vulto branco surgiu, percorrendo o quarto em alta velocidade, como um fantasma. A ilusão só se desfez quando fechou os olhos e passou a escutar o que diziam.

— Está tudo bem, doutor?
— A criança teve um colapso no pulmão. Ainda é cedo para se dizer. Gostaria de falar com a senhora lá fora, se possível.

A mãe se aproximou da cama.

— Fique com seu pai, ok? Só vou ali fora rapidinho e já volto.

Estava enjoado. Aquele quarto era mesmo abafado ou as janelas estavam fechadas? Tentou esticar o braço, mas a dor o fez desistir. Tossiu mais uma vez. O estalar de uma gota o distraiu. Sempre pensou que estar conectado a fios seria mais parecido aos desenhos que ele e seu pai costumavam assistir nos canais de ciência. A realidade era bem diferente.

— E aí campeão. Como se sente? – indagou o pai, sentado na beira da cama.
— Ruim…
— Você está na CTI. Vai se recuperar logo.

Preocupado, o pai verificou os níveis de soro. Vendo sua aparente tristeza por se sentir um monstro preso a um conjunto de eletrodos, tentou animá-lo contando uma história, como sempre fazia antes de dormir. Por ser um ávido leitor de ficção antiga e contemporânea, criava seus próprios enredos, misturando conceitos e adaptando aventuras.

— Já ouviu aquela do pirata espacial em busca do lendário tesouro perdido de Cassiopeia?

Vendo a resposta negativa, sorriu. Aquilo o ajudaria a se distrair.

***

— Atenção, marujos! Aquele ponto luminoso é nosso destino final! – Girou uma chave no leme. — Içar velas solares! Ligar o reator de fusão! Aos seus postos!

O encouraçado imponente deslizou suave pelo caminho pavimentado de matéria escura. Em apenas uma hora chegariam ao farol, marcado no mapa holográfico com um desenho bastante significativo: uma esfera de raios desintegrava a embarcação. Bastante poético. Ou um aviso para permanecerem longe.

Francis retirou um livro do bolso, relíquia de tempos imemoriais, e passou a recitá-lo. Naqueles tempos de crise, compartilhar conhecimento era essencial. Ao contrário do líder da esquadra inimiga, preferia uma tripulação culta que lhe desse vantagem nos negócios. Folheou o pequeno livro.

— “Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua de mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança”… — Hum. Esse é bom. Ernest Hemingw…

Foi interrompido pelo aviso nada discreto da tela panorâmica. Os destroços à sua frente tornaram-se visíveis em pouco tempo. Guardou o livro. Esticou o braço mecânico e testou as articulações. Encaixou os dedos nas aberturas laterais do painel. Seus subordinados aguardaram.

— Iniciar manobras evasivas!

Uma enorme carcaça de um modelo antigo, comercial, raspou no mastro sobre suas cabeças, colidindo com o campo de força. Reconheceu a bandeira. Tratava-se de uma desavença antiga. Mas a distração custou caro. Não foi possível desviar das partículas menores. Um pedaço da proa alheia riscou a lateral do grande Pelican. O impacto, sentido nos deques inferiores, veio acompanhado de um som estridente. Francis não se deu por vencido. Enviou um comando pelas frágeis conexões. Lutou ferozmente contra as peças restantes – um enxame de abelhas com ferrões de aço.

Estavam muito perto do tesouro para desistirem, mesmo que o escudo do Pelican começasse a falhar. A embarcação, capaz de perfurar linhas inimigas e atravessar atmosferas mais densas, possuía clara vantagem. A diferença era que ali, em território desconhecido, qualquer deslize seria fatal. Talvez não conseguissem se desvencilhar dos meteoritos. Contudo, mesmo com todo aquele lixo espacial, a pequena lua – onde o Farol de Cassiopeia fora construído – mostrava-se imponente, ousada, desafiadora… Mortal. Pensamentos sombrios, como corvos em busca de vítimas, lhe atormentaram. Não queria terminar assim como os outros.

O encouraçado rejeitou a conexão transumana assim que o horizonte emitiu feixes de luz ancestral; fantasmagórica, perturbadora. Francis fechou os olhos. Um portal dimensional retangular se materializou.

***

O médico entrou, seguido pela jovem senhora. O semblante denunciava a gravidade da situação.

— Depois eu continuo, filho. Vou ali falar com o doutor e já volto. Certo?

Assentiu. O tempo realmente passava mais rápido quanto se permitia bater as asas da imaginação. Ajeitou as pernas. Só então percebeu que não vestia nada por baixo. Quem o havia colocado na cama? O que haviam visto? Inspirou fundo. Mas a sensação ruim não desaparecia. Odiava hospitais. E quem não odiava? O chamado da natureza interrompeu seus devaneios. Arrastou uma perna para fora. Ao puxar a outra, notou que o tubo se moveu, roçando em seu peito. Aquilo lhe provocava calafrios. Era mais difícil do que imaginava. Fez uma careta ao esticar-se todo. Onde estavam os chinelos?

— Filho! Era só ter pedido! – Exclamou a mãe.

O pai acompanhou o restante da conversa. Carregar o suporte e o botijão era algo bastante incômodo.

— Como estava dizendo, seu filho está num estado crítico de recuperação. Mas, felizmente, tudo correu bem na cirurgia. Foi necessário retirar um pequeno pedaço do pulmão direito, devido ao enfisema bolhoso.
— Ele vai voltar a ter uma vida normal? – Os olhos do pai fitaram os do médico.
— A cirurgia resolve a maior parte dos problemas relacionados a esse caso espontâneo. Contudo, recomendo fazer um exame de rotina a cada ano, para garantir a estabilidade. É uma doença mais comum do que se imagina… Ele não poderá mergulhar ou fazer qualquer outro exercício que exija força física além do normal.
— Nem andar de bicicleta?
— Exercícios aeróbicos são bons. Mas levantar peso ou se exceder nessas atividades, não.
— Puxa… Ele gostava tanto de basquete. – Disse, desapontado.
— Recomendo atividades mais intelectuais. Ele gosta de ler?
— Muito.

O pai passou a mão na testa cheia de suor. Apertou a mão do médico e agradeceu. O que diria a seu filho? Que poderia esquecer a carreira nos esportes, principalmente aquáticos? Jamais diria tal coisa. Era triste ver aquela criança presa a fios e tubos, arrastando um roupão, enquanto tentava diminuir a dor dando passos curtos. Pelo menos tudo correra bem. Jamais esqueceria sua face de terror e pânico ao perceber que a leve pontada no peito era muito mais do que uma simples falta de ar. Se dependesse dele, apagaria da memória de seu filho aquelas horas terríveis.

— Tudo certo, campeão?
— Não. A mãe ficou me olhando.

Riu. Ajudou a colocá-lo de volta no leito. Seus olhos estavam fixos no tubo. Ninguém ousaria tropeçar nele, mas fez questão de se certificar.

— Tive uma ideia. Que tal escrevermos juntos uma história? Poderíamos colocar no papel tudo o que inventarmos. E quem sabe, depois de uma revisão, imprimir numa gráfica. Não seria legal?
— É.

Se não pudesse se tornar o próximo grande astro do basquete, que virasse um escritor. No entanto, quanto a isso, somente ele poderia decidir. Sentou ao seu lado, enquanto a mãe preparava o lanche da tarde.

— O que acha de escrevermos uma frase de efeito no primeiro parágrafo? – Continuou o pai.
— Mas você nem terminou a história ainda…
— Eu sei.
— Coloca aquela… – Seu filho desenhou uma engrenagem no ar.
— Você andou lendo minha coleção antiga; não foi?

Pegou a folha em cima da escrivaninha. Mordeu o lábio inferior ao ver a extensa lista de medicamentos dos próximos meses. Respirou fundo. Virou-a do avesso e escreveu atrás, sorrindo de forma sincera, apesar de saber que os próximos anos não seriam nada fáceis. Escreveu a sugestão.

“A imaginação move as engrenagens do futuro…”.

***

Os portões do desconhecido se abriram. Uma borboleta translúcida deu-lhe as boas-vindas. Não enxergava nada além do campo hiperbóreo. Era a luz do Farol de Cassiopeia. Levou a mão ao rosto. Encobriu a intensa emissão da exótica estrutura colossal. Estava só. A superfície era firme e rochosa. Assim que a luz trocou de posição, pôde avistar os restos mortais de seu encouraçado. Pedaços de uma vida desfeita em segundos. Para seu alívio, não havia ninguém a bordo. Aonde teriam ido? Girou em seus próprios pés. Havia um prédio em ruinas dentro da cratera à sua frente. Parecia uma versão menor do mecanismo primordial, imperfeitamente humano. Não restaram dúvidas.

Subiu um pequeno morro, desceu outro, subiu mais um. Parou em frente à porta. Observou os detalhes. Havia entalhes na madeira recente, de três metros de altura. Procurou o puxador, mas acabou encontrando várias assinaturas conhecidas, recém-riscadas na madeira tratada de navio espacial. Era sua tripulação! Sem qualquer receio, empurrou a porta.

Uma imensa biblioteca milenar, uma Hiperbórea grega, nocauteou seus sentidos. Desviou o olhar. Seus companheiros sorviam uma bebida áurea enquanto sorriam e cantavam em cima das mesas distribuídas pelo museu, ou, como descobriu mais tarde, uma taverna disfarçada de casarão mal-assombrado. Aquele era o tesouro de que tanto falavam? Quantos morreram para encobrir a verdade? Esperava um rio de pedras preciosas, uma cascata de ouro dezoito quilates ou uma vila de esmeraldas. Mas o que havia ali? Uma Alexandria milenar?

Roubou a caneca do homem que lhe dava um tapinha nas costas e sorveu o líquido de uma vez só. Ergueu os braços e desceu a escadaria. Foi ovacionado e aplaudido como nunca. Atrás das estantes recheadas de livros havia uma quantidade infinita de barris dourados – preciosas bebidas de embarcações que amargaram o mesmo fim. Passou a comemorar, afinal, o entusiasmo era contagiante.

Todavia, o pensamento mais provável e lógico se fez presente. Nunca mais sairiam dali. Tornar-se-iam os novos guardiões do Farol de Cassiopeia, assim como os esqueletos do andar superior – agarrados ao seu mais precioso tesouro – fizeram um dia.

Sentou-se na mesa reservada. Ajeitou a caveira ao seu lado e retirou o livro de suas mãos. Ignorou o título e passou a ler em voz alta o primeiro parágrafo, afinal, naqueles tempos de crise, compartilhar conhecimento era essencial.

— “A imaginação move as engrenagens do futuro… A imagem produz o sonho. A ação projeta a humanidade. E o movimento acende estrelas onde antes havia apenas solidão.”.

Quem poderia ter escrito palavras tão sábias? Recorreu aos autores. E se surpreendeu ao descobrir que, pela primeira vez, sua jornada chegava ao fim. Havia encontrado o bem mais precioso da galáxia…

Os escritos de seus antepassados. Sua própria história.

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